Segunda-feira Cinzenta
Segunda-feira, 14 de Abril de 1975
O céu acordou azul, mas com um azul cansado, como se também ele tivesse passado uma noite em claro. Eu estava deitado, a ouvir o tique-taque do despertador que insistia em lembrar-me que o mundo continuava, mesmo quando eu não queria.
Levantar? Para quê? pensei, virando-me para o tecto. Cada fibra do meu corpo protestava, como se a preguiça fosse uma lei maior do que qualquer compromisso. Mas a rotina chamava, arrastando-me até à cozinha, onde o pequeno almoço parecia conspirar contra mim: café sem gosto, pão seco, silêncio pesado.
O Manel apareceu. Logo a irritação encontrou um caminho fácil. Um gesto, uma palavra mal colocada, e já estávamos em guerra sem sentido.
— Estás sempre assim, irritadiço! — disse ele.
— Não estou… — tentei argumentar, mas as minhas palavras eram apenas ecos da minha própria exaustão.
O silêncio que se seguiu foi espesso, quase físico, e senti o tédio da escola a invadir-me antes mesmo de atravessar o portão.
Na escola, dois professores faltaram. Deveria ter sido uma vitória, mas tornou tudo mais inútil ainda. Caminhei pelos corredores abafados, cheirando a giz e madeira velha, e perguntei-me: Para quê? Para quê estar aqui se nada acontece? Três aulas passaram, e eu saí sem entusiasmo, com o corpo molhado pelo chuvisco fino que parecia zombar da minha apatia.
E então, encontrei o Benjamim. Não precisávamos de planos; a amizade era suficiente.
— Podias passar lá em casa — sugeri, tentando soar casual. — Traz o violão.
Ele olhou de soslaio, aquele ar habitual de quem nunca recusa música.
— Se tiveres paciência para ouvir, não vejo porque não.
O tempo começou a esticar-se, mas não de forma desconfortável. Tocamos violão, rimos, falamos de tudo e de nada. A chegada do Manel trouxe um pouco de caos, e quando o meu pai se juntou para jogar cartas, senti o mundo a ficar mais leve, mesmo que apenas por instantes.
No fim, olhei para o relógio e percebi que a noite caía sem pressa, silenciosa, como se também ela estivesse a saborear cada fragmento do dia.
Deitado na cama, deixei o corpo relaxar, mas a mente não encontrava descanso. O vazio parecia querer instalar-se, mas, por entre o nevoeiro do meu cansaço, ela surgiu novamente, aquela luz tênue que teima em aparecer nos momentos mais inesperados.
Mesmo nos dias cinzentos, há luz. Mesmo na rotina mais pesada, há acordes que nos lembram de respirar.