Aniversário da Dila

Domingo, 13 de Abril de 1975

O cheiro fresco da manhã entrou-me pela janela aberta. Espreguicei-me devagar, sentindo o leve desconforto nas costas, agora mais brando, como uma recordação do dia anterior. Mas não era isso que importava. Hoje, sem saber, guardava em si um peso diferente. Um dia que ainda não se revelava, mas que já pulsava com uma urgência silenciosa.

Levantei-me num ímpeto, como se a demora na cama pudesse roubar àquele dia a sua importância, desconhecida e prometida. A manhã estendia-se preguiçosa, mas dentro de mim tudo corria depressa, inquieto e expectante.

O Manel chegou pouco depois. Sem rodeios, perguntei-lhe se queria acompanhar-me ao encontro com a Dila. Ele aceitou logo, e seguimos pelo caminho do adro da igreja. Chegamos, olhamos à volta, mas não a vimos. Encostados ao muro, os nossos olhos varriam a rua. Cada minuto sem ela aumentava a ansiedade, a estranha mistura de impaciência e incómodo.

Para quebrar a espera, fomos a casa do Benjamim, mas a visita foi breve. Voltamos ao adro, e o tempo continuava a escoar-se sem notícias da Dila. Decidimos ir até minha casa. Pelo caminho, o Manel teve a ideia de levar um violão. Ficamos ali quase uma hora, tocando, mas os acordes não chegavam. Cada nota parecia arrastar o pensamento de volta para a mesma pergunta: "Porque é que ela não veio?"

Decidi tentar uma última vez. Se ela não estivesse lá, desistiríamos. Mas, ao dar a volta à igreja, lá estava ela. Vinha acompanhada por uma colega. O coração deu-me um salto; a presença dela apagava toda a espera. Sentei-me, quase instintivamente. Elas passaram por nós duas vezes antes de se sentarem à nossa frente.

O meu corpo reagia a cada movimento dela. Mudamos de lugar para uma porta lateral da igreja. Pouco depois, a Dila voltou, agora acompanhada por duas colegas e pela irmã. Foi nesse instante que a chamei. Ela virou-se e aproximou-se.

— Quando é que fazes anos? — perguntei, quase sem pensar.

— Hoje. — disse, com um meio sorriso.

O meu coração saltou de novo. Toda a espera, toda a incerteza, parecia justificar-se naquele instante.

— Parabéns, Dila. — a minha voz saiu sincera, carregada de algo que nem eu sabia nomear.

Conversamos durante a tarde. Cada palavra, cada olhar, reforçava uma sensação que queria acreditar ser amor, lealdade e intimidade. Mais tarde, propus-lhe ir ver o cavalo do tio do Manel. Aceitou prontamente. Ao chegarmos, enquanto ele preparava a comida, ela viu a minha mãe ao longe. Um instante breve, mas cheio de significado, o encontro silencioso entre o que ela queria conhecer e a vida que eu trazia comigo.

Demos de comer ao cavalo, e ao final do dia acompanhei-a até casa. A despedida alongou-se, recheada de palavras que tentavam adiar o inevitável. Quando finalmente se foi, fiquei parado, olhando a rua vazia.

O dia ensinou-me algo silencioso: no início, a ausência parecia um vazio insuportável. No fim, percebi que a espera tinha o seu valor. Ensina-nos a dar importância ao que realmente conta. Se ela tivesse chegado logo, talvez tudo tivesse sido mais simples. Mas não teria aprendido que o que importa não é a rapidez, mas o significado que cada momento carrega.

A noite caiu lenta, e o regresso a casa trouxe consigo pensamentos dispersos. O jantar passou-se em silêncio; a mente perdida num nome. Mais tarde, na solidão do quarto, folheei um livro sem ler, e o dia fechou-se numa melancolia suave, onde apenas a esperança do amanhã mantinha sentido.