Dores e Pensamentos
Sábado, 12 de Abril de 1975
O despertar trouxe uma claridade morna, filtrada pelas cortinas. Espreguicei-me com cuidado, sentindo ainda um ligeiro desconforto nas costas. Mal havia tempo para grandes reflexões — o dia começou com uma surpresa: um pequeno teste escrito que ninguém avisara, acompanhado de um exercício extra que parecia decidido a testar a paciência de todos. As costas continuavam a incomodar-me, e acabei por faltar à última aula, acompanhando o Benjamim e o Manel na volta para casa.
Cheguei a casa, lanchei e passei algum tempo a ver televisão, tentando desligar da escola e da dor. Mais tarde, depois do jantar, estava entretido a ver um filme quando ouvi a voz animada do meu cunhado Jorge:
— Anda ver isto, Tono! — chamou ele, do outro lado da rua.
Levantei-me e fui até à rua. Tinha acabado de comprar um carro, um Fiat 600 usado, e queria mostrá-lo. O carro era antigo, mas tinha um charme próprio, como se carregasse histórias invisíveis. Gostei dele de imediato. Observá-lo era quase como ouvir uma memória silenciosa da estrada, sentir a personalidade que os anos lhe tinham dado.
— Olha só este motor, parece que ainda tem força para umas boas viagens — comentou Jorge, orgulhoso.
— Sim… e a pintura ainda está boa — respondi, examinando cada risco e cada brilho, sentindo um prazer estranho em descobrir a história que aquele carro contava.
Passámos um bom bocado a discutir pormenores: o estado do motor, a pintura, os detalhes que transformavam um carro antigo numa peça especial. Há algo fascinante nos objectos com história, nos carros que já viram tantas estradas e que agora ganham uma nova vida.
Voltei para dentro, terminei o filme e fui para a cama. As dores nas costas ainda lá estavam, mas já começava a habituar-me a elas. O corpo adapta-se, tal como nós nos adaptamos às pequenas contrariedades do dia-a-dia. Talvez a vida seja isso mesmo: aprender a viver com algumas dores, sem deixar que nos impeçam de continuar.
A tarde passou sem grande história, um daqueles dias em que o tempo se dissolve sem deixar marca. O sol desceu devagar, tingindo o céu de cores quentes antes de ceder à noite. Antes de adormecer, pensei nela. No dia que vinha. No que lhe diria.
Adormeci com a certeza de que a manhã traria algo novo, um pouco de aventura escondida no trivial, como sempre acontece nos dias de adolescência.
Hoje percebi que a vida se constrói nos pequenos momentos: um carro antigo, uma conversa com alguém que gostamos, o conforto silencioso de uma rotina que não nos magoa demasiado. As dores vêm e vão, mas os instantes que nos fazem sorrir ficam, mesmo que a memória os transforme em algo quase mágico.