O Peso do Silêncio
Sexta-feira, 11 de Abril de 1975
Acordei com a mesma sensação incómoda de sempre, uma pontada persistente que parecia querer marcar o ritmo do meu dia. Virei-me devagar na cama, procurando uma posição que aliviasse a dor, mas sem sucesso. A luz da manhã entrava pela persiana entreaberta, desenhando riscos pálidos no chão, enquanto os pardais lá fora chilreavam como se nada fosse comigo, e o som distante de um carro a passar lembrava-me que o mundo continuava a girar, mesmo quando eu me sentia parado.
Levantei-me devagar, com cuidado de não agravar a dor. A casa estava silenciosa, como sempre a esta hora. Cada passo ecoava no corredor, e o frio da água no rosto acordou-me apenas um pouco, insuficiente para afastar o peso que se agarrava às minhas costas. Vesti-me devagar, tentando não pensar muito no que me esperava.
Na escola, Ciências Naturais foi um desastre. A dor não me deixou concentrar, e tudo parecia escapar-me das mãos. Uma mistura de frustração e impaciência fez-me sentir inútil; acabei por faltar às duas últimas aulas, escondendo-me num canto da biblioteca a tentar recuperar algum controlo sobre o dia.
Durante a tarde, fiquei sozinho no meu mundo de palavras e cadernos. Escrevi no diário, transformando cada pontada de dor em frases, tentando que a tinta absorvesse o desconforto. Há algo de reconfortante em escrever, mesmo quando custa; como se alguém invisível lesse e dissesse: “Eu percebo-te”.
A luz da tarde esmoreceu devagar, dissolvendo-se em sombras longas que se estendiam pelo quarto. Lá fora, a cidade acalmava, embalada pelo murmúrio do vento e pelos passos distantes. Senti o cansaço instalar-se sem pedir licença. Fechei o diário, recostei-me e deixei-me levar pelo peso da noite, sabendo que amanhã tudo recomeçaria, com dores ou sem elas.
Hoje aprendi que há dias em que o corpo nos limita e a mente tenta compensar. Mas também percebi que, mesmo no silêncio e na dor, podemos encontrar um espaço só nosso, onde o mundo parece fazer sentido, nem que seja apenas nas palavras que escrevemos.