Entre Sombras e Suspiros
Quinta-feira, 12 de Junho de 1975
De manhã, ao acordar, a luz filtrava-se pelas frestas da persiana, desenhando sombras longas e trémulas no tecto, como se dançassem ao ritmo da respiração da vila. Lá fora, a vida fervilhava, indiferente às pequenas catástrofes do meu coração, e eu senti-me simultaneamente protegido e só.
Na escola, a ansiedade moldava cada passo, cada olhar. Procurei a Dila antes da primeira aula, no portão do liceu. Ela estava ali, imóvel, mas com o cenho levemente franzido, como se adivinhasse tempestades que eu ainda nem sabia nomear.
— O que aconteceu ontem? — perguntou ela, baixa, quase num sussurro, olhando de soslaio à volta, como se a rua inteira pudesse escutar cada palavra. Havia um nervosismo no seu olhar, uma mistura de cautela e expectativa, como se antecipasse um desastre que não queria admitir.
— A tua mãe foi lá a casa e disse que tu e o teu pai iam falar com o meu. Passei o dia inteiro a pensar nisso.
Ela suspirou, abanando a cabeça, como se tentasse afastar nuvens invisíveis que se acumulavam sobre nós. Os olhos dela, por um instante, pareceram hesitar entre a firmeza que queria mostrar e a preocupação que não conseguia disfarçar.
— Não sabia que ela tinha ido falar com os teus pais. Eu e o meu pai não fomos porque ele achou que não valia a pena… Ela estava zangada, mas… — fez uma pausa e olhou-me de frente, como se estivesse a medir o efeito das suas palavras no meu peito. — Tu não tens culpa.
Senti um peso a esvair-se de mim. Não era apenas alívio; era algo mais profundo, uma espécie de bálsamo que só a voz dela conseguia dar.
— Pensei que ia ser um desastre… — murmurei, quase hesitando, sentindo que ao dizer aquilo tornava os meus medos menos solitários.
— Por agora, acho que não vai acontecer nada. Mas temos de ter cuidado. Ela está atenta.
Olhei para ela e percebi a pequena tensão que ainda carregava, uma sombra que a experiência dos dias anteriores não podia dissipar.
— Então… — arrisquei, tentando soar casual, embora a voz me tremesse — estamos… estamos bem?
Ela franziu o cenho, depois sorriu levemente, quase sem se ouvir.
— Estamos, por enquanto. Mas não podemos ignorar tudo. Cada passo em falso pode ser… — suspirou, procurando a palavra certa, e terminou com um quase sussurro: — delicado.
— Delicado… — repeti, sentindo o peso e a verdade da palavra, como se fosse um fio que nos ligava. — Delicado como nós.
Ela corou ligeiramente, desviando os olhos, mas a ponta dos lábios ainda se curvava num sorriso tímido.
— António… — começou, hesitante, depois parou. O silêncio disse mais do que qualquer frase. Era como se estivéssemos a aprender a medir o espaço entre nós, a reconhecer a fragilidade do que sentíamos, e ao mesmo tempo a ganhar coragem só por partilhar aquele instante.
— Dila… — disse eu, quase baixinho — não quero que algo assim nos separe. Nem um momento.
Ela voltou a olhar-me, desta vez com mais firmeza, mas ainda assim carregada de cuidado:
— Nem eu. Mas temos de ser cuidadosos. A vida lá fora não entende destas coisas… nem sempre.
Ficamos em silêncio, observando o movimento da cidade, cada sombra a lembrar-nos que o mundo continuava, indiferente às nossas pequenas tempestades internas. E naquele silêncio partilhado, senti que algo dentro de mim crescia: a coragem de sentir, a paciência de esperar, e a certeza silenciosa de que, apesar do medo, não queria estar em nenhum outro lugar senão ali, ao lado dela.
Assenti, sem saber que palavras poderiam acompanhar aquela segurança discreta. Não havia soluções mágicas, mas sentia-me, enfim, um pouco menos esmagado pela incerteza.
O resto do dia passou como um sonho de fuga. Quando o Benjamim sugeriu faltar às aulas e irmos à piscina, aceitei de imediato, como se a água pudesse lavar não só o calor do sol, mas também a tensão enraizada no meu peito. Passamos a tarde a rir, a competir na flutuação, a desafiar pequenos mergulhos que pareciam promessas de liberdade. O tempo tornou-se líquido e maleável, e, por momentos, esqueci-me do mundo lá fora.
Ao regressarmos, a realidade esperava. O Benjamim tinha sido suspenso de três aulas de artes marciais e não podia aparecer em casa antes das onze. Procurei-o mais tarde, pelas ruas que começavam a aquecer com a noite, mas desaparecera entre sombras e risos alheios, deixando-me sozinho com pensamentos que insistiam em crescer.
À noite, a festa em casa da minha irmã Fernanda tentava colorir a casa com vozes e risos. Eu participei, mas a mente escapava-me, silenciosa, voltando sempre às pequenas fissuras que o dia deixara. Entre o tilintar dos copos e conversas dispersas, sentia-me preso entre o conforto do familiar e a inquietação de não saber, de não controlar. O cansaço finalmente venceu-me, e deitei-me, desejando que o sono fosse um mapa que levasse o coração ao porto da clareza.
Mas a noite foi longa, inquieta. Acordei várias vezes, perdido entre pensamentos dispersos e sonhos que não faziam sentido, onde a Dila aparecia, às vezes distante, às vezes quase tangível, e eu aprendia, ainda sem perceber, que crescer é aceitar que o coração se expõe mesmo quando ninguém observa.
« Página anterior / Índice / Página seguinte »