A Ameaça da Mãe da Dila

Quarta-feira, 11 de Junho de 1975

O dia nasceu antes de mim, como se tivesse pressa em viver o que eu ainda não sabia enfrentar. A luz insinuava-se pelas frestas do estore, um ouro pálido que parecia chamar-me pelo nome. Depois, um assobio — breve, certeiro — rasgou o silêncio: era o Benjamim, debaixo da janela, impaciente como sempre. Vesti-me à pressa, ainda meio sonâmbulo, e desci as escadas com o coração a galopar, sem saber se era pela pressa ou pela vida que começava a pesar-me no peito.

O ar da manhã tinha aquele cheiro a terra molhada de uma chuvada nocturna que acorda os sentidos. Haviam gotículas de chuva a brilhar nas folhas, como se a noite tivesse chorado por nós. Seguimos pelo caminho de terra, o Benjamim a falar de nada e eu a fingir que ouvia. O cavalo esperava-nos, movendo a cabeça com aquele ar nobre de quem sabe que vale mais do que os rapazes que o servem. Demos-lhe o feno, penteamo-lo com as uma escova e, por instantes, esqueci o resto do mundo.

Mas o mundo não se esquece de nós. Quando voltei a casa, encontrei a minha mãe de braços cruzados e olhar duro. O silêncio dela era um prenúncio.

— A mãe da Dila esteve aqui — disse, sem rodeios. — Queixou-se de ti. Disse que à noite viriam a Dila e o pai falar com o teu pai.

As palavras caíram-me em cima como uma pedra no estômago. Fiquei parado, à espera que alguém me dissesse que era mentira. Mas a minha mãe apenas desviou o olhar, como se quisesse poupar-me e, ao mesmo tempo, castigar-me.

O resto da manhã foi um arrastar de horas. O relógio parecia troçar de mim. O almoço não me soube a nada — mastigava o pão e o medo ao mesmo tempo. Quando encontrei o Benjamim e o Manel, contei-lhes tudo, na esperança de que partilhassem a gravidade do que eu sentia. Eles riram-se.
— Bah, isso passa — disse o Manel.
— As mães gostam de fazer drama — acrescentou o Benjamim.

Mas eu sabia que não era só drama. Havia qualquer coisa de definitivo naquele aviso. Como se o mundo adulto tivesse, finalmente, reparado em nós — e não gostasse do que via.

Tinha de avisar a Dila. Não podia deixá-la apanhar de surpresa. Passei a tarde a matutar na melhor forma, até que me decidi por um bilhete. As mãos tremiam enquanto o escrevia: “Dila, a tua mãe veio cá. Disse que hoje vocês viriam falar com o meu pai. Tenho medo. Não sei o que fazer.” Dobrei o papel e guardei-o como quem segura um segredo perigoso.

À saída do liceu, avistei-a. O sol fazia-lhe brilhar o cabelo como se o fogo morasse ali. Quando passou por mim, toquei-lhe no braço e sussurrei:
— Lê isto depois.
Ela olhou-me com uma mistura de susto e ternura.
— O que se passa, António?
— Depois explico. — E fugi antes que me faltasse o ar.

Passei as aulas como quem vive noutra dimensão. Os professores falavam, os colegas riam, e eu ouvia tudo como um eco distante. No intervalo, imaginei a Dila a ler o bilhete, os olhos a correrem pelas minhas palavras. Teria ficado zangada? Triste? Ou apenas assustada?

Saí mais cedo. A incerteza era um peso insuportável. Pedalei até ao monte, o vento a bater-me na cara como se quisesse acordar-me da minha própria covardia. Lá em cima, o silêncio era total, quebrado apenas pelo zumbido dos insectos e pelo rumor longínquo das aldeias. Senti-me pequeno, preso entre o medo e a vontade de lutar por algo que nem sabia o que seria.

“Porque é que fugi?”, perguntei-me. O coração respondeu antes do pensamento: porque ela importa demais.

Regressei ao entardecer, com o céu pintado de laranja e azul. Cada ruído na rua parecia o prenúncio da conversa temida. O som de passos, uma porta a bater, vozes ao longe — tudo me fazia estremecer. Mas a Dila e o pai nunca vieram.

O alívio foi tão grande que quase me fez rir. Mas sabia — lá no fundo — que era um alívio falso, como quem adia a tempestade sem conseguir mudar o tempo.

Nessa noite, deitado na cama, senti o corpo cansado e a alma acordada. O sono veio em fragmentos: o rosto da Dila, o olhar severo do pai dela, a voz da minha mãe. Entre os sonhos e a vigília, senti-me crescer — não por vontade, mas por necessidade.

E percebi, talvez pela primeira vez, que amar alguém pode ser também isto: um risco silencioso, um segredo que nos amadurece, mesmo quando o mundo nos quer ainda meninos.


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