O silêncio antes do verão
Terça-feira, 10 de Junho de 1975
Acordei com o sol a esgueirar-se pelas frestas da janela, como quem entra devagar para não acordar os sonhos. O dia nasceu preguiçoso, com o mesmo tédio doce das manhãs de feriado. Não havia aulas, e o tempo parecia estender-se diante de mim como uma estrada sem fim.
O tio do Benjamim passou por casa e levou-nos até ao campo para treinar o cavalo. O animal, inquieto e orgulhoso, parecia espelhar o temperamento dos dias quentes — impaciente, mas cheio de força. O Benjamim ria-se, o tio dava ordens firmes, e eu limitava-me a observar aquela harmonia entre o homem e o animal, entre o instinto e a obediência. Às vezes, pensava que amar devia ser parecido com domar um cavalo: há que saber quando puxar as rédeas das emoções e quando largá-las.
De tarde, eu, o Benjamim e o Manel decidimos sair de bicicleta. Sem destino, só com o impulso de fugir ao calor e à lentidão das horas. Pedalávamos depressa, como se o vento pudesse limpar-nos os pensamentos. Passamos várias vezes em frente à casa da Dila — disfarçadamente, claro, fingindo distração, mas com o coração a bater mais depressa a cada volta.
Numa das voltas lá estava ela no quintal da casa, sentada junto à irmã. O vestido claro movia-se com a brisa e o riso dela misturava-se com o rumor das folhas. Só de a ver, senti aquele velho arrepio — um tremor que começava no peito e subia até à garganta, sem aviso. O Benjamim, reparando no meu silêncio, disse:
— Para onde estás a olhar?— Para nada - respondi alheado da pergunta.
— Outra vez a olhar para o nada?
— Para o nada… talvez — respondi, sorrindo.
— O nada tem nome, Tono. E chama-se Dila.
Não lhe dei troco, mas ele tinha razão. A Dila tinha qualquer coisa de irreal, como se viesse de um lugar onde o tempo não se gasta. E eu, cada vez que a via, sentia que uma parte de mim se descolava do chão e ficava suspensa nesse olhar breve, como quem tenta guardar o instante antes que ele se apague.
O resto da tarde dissolveu-se num cansaço bom. Voltamos pelo caminho do rio, e o sol, baixo na serra, parecia arder por dentro da água. A paisagem tinha o mesmo tom do meu pensamento — quente, confuso, cheio de promessas que eu não sabia decifrar.
À noite, já na cama, fechei os olhos e ainda a vi — não como estava, mas como ficou em mim: um reflexo que teima em não desaparecer. Senti-me ao mesmo tempo vivo e inquieto, como se o coração me pedisse respostas que eu ainda não sabia formular.
Talvez seja isto crescer — perceber que o amor começa antes de sabermos o que ele é. Um simples olhar, um nome dito em silêncio, e de repente tudo muda, mesmo que nada aconteça.
E nessa mudança invisível, percebi que o verão estava prestes a começar. Não o das estações, mas o outro — o que se acende dentro de nós, e já não apaga.
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