A Linha do Fim
Segunda-feira, 9 de Junho de 1975
A manhã nasceu envolta numa luz pálida, filtrada pelas cortinas do meu quarto. A claridade parecia indecisa, como se o sol também não soubesse se devia começar o dia. Lá fora, a cidade acordava num murmúrio abafado de motores e passos, uma sinfonia distante que me soava a costume. E eu, de olhos abertos, já cansado da rotina antes mesmo de a enfrentar, senti um impulso difícil de conter: fugir. Hoje não queria aulas, não queria horários nem vozes de professores. Queria apenas estar com a Dila.
O Benjamim, cúmplice de todas as minhas pequenas rebeldias, alinhou logo. O plano era simples, quase pueril — escaparmos aos compromissos e seguir com ela no trólei, sem destino definido. E assim foi.
Durante toda a viagem sentei-me ao lado dela. O barulho do motor e o chiar metálico das rodas nas curvas dissolviam-se à nossa volta, como se o mundo inteiro se resumisse ao espaço estreito entre os nossos ombros. A Dila falava, e cada palavra parecia acender algo em mim — uma curiosidade nova, um desejo de permanecer nesse instante. Falava dos exames que se aproximavam, da vontade de que o verão chegasse depressa, das tardes que queria passar à beira-rio com um livro e o rádio pequeno que o pai lhe oferecera.
— Às vezes apetecia-me desaparecer por uns dias, sem dizer nada a ninguém — disse, olhando pela janela, distraída.
— E ias para onde? — perguntei, fingindo indiferença.
— Não sei. Talvez para o mar. Lá o tempo não pesa.
— E voltavas? — arrisquei, baixinho.
Ela virou-se para mim, um sorriso a meio caminho.
— Se houvesse alguém à espera, voltava.
Fiquei calado. Depois, quase num sussurro, deixei escapar:
— Então é melhor ficares… o mar pode esperar.
Ela riu-se, mas baixou os olhos. Os dedos brincavam com a alça da mala, como se procurassem ali uma resposta. Ficamos assim — meio envergonhados, meio cúmplices — a ver a cidade passar pela janela.
O trólei parou no fim da linha. O Benjamim afastou-se, compreendendo o que se passava sem que fosse preciso explicar. Acompanhei a Dila pelas ruas estreitas que subiam em direcção à casa dela. De repente, ela parou, tirou uma pequena carteira da mala e olhou-me, espantada.
— Olha só o que encontrei!
— Encontraste essa carteira na tua mala? — perguntei, meio confuso.
— Sim, é da Lurdes, uma amiga minha. Nem sei como foi parar lá… Mas tenho de lha devolver.
— Queres que vá contigo?
Ela hesitou um instante — e naquele breve silêncio, o tempo pareceu prender a respiração. Depois sorriu.
— Se quiseres vir, claro.
Fui. Caminhamos sem pressa, conversando sobre nada e sobre tudo. Às vezes calávamo-nos, mas o silêncio entre nós não pesava — era uma espécie de conversa muda, feita de olhares e passos sincronizados. Quando entregou a carteira, fiz questão de a acompanhar de volta, mesmo sem saber se o devia fazer.
O Benjamim esperava-nos, de braços cruzados, com aquele ar de falsa zanga que nunca enganava ninguém.
— Pensei que me tinhas deixado aqui para sempre! — disse, fingindo-se ofendido.
— Vá lá, já vamos — respondi, rindo.
À noite, voltei a vê-la. Estava com a irmã e a mãe, sentadas à porta, o ar já cheirava a verão e a festas. O Benjamim falou em comprar bombinhas de S. João — e nós, sem pensar duas vezes, fomos. Corremos pelas ruas, rindo e fugindo, a luz das faíscas a riscar o escuro como breves sonhos acesos. Na primeira vez, ainda escapamos com gargalhadas. Na segunda, foi fuga a sério, o coração a bater descompassado, o riso a misturar-se com o medo.
Quando finalmente cheguei a casa, ainda me ria sozinho. O corpo cansado, as pernas pesadas, mas a alma acesa. Deitei-me tarde, revivendo cada gesto, cada olhar, cada som daquela noite.
E antes de adormecer, percebi algo que ainda não sabia nomear: que a Dila começava a ser mais do que presença — começava a ser memória. E que o riso, às vezes, é apenas o disfarce mais leve do fogo que arde por dentro.
« Página anterior / Índice / Página seguinte »