Entre Luz e Fumo

Domingo, 8 de Junho de 1975

A manhã chegou como uma brisa lenta, trazendo o hábito da missa, aquele ritual a que me estava a habituar. O Benjamim acompanhou-me, e juntos atravessamos as ruas silenciosas, onde o sol caía em fendas de luz como se quisesse pintar os nossos passos. Dentro da igreja, o incenso subia preguiçosamente, enrolando-se no ar e deixando um rasto que parecia tocar memórias que ainda não tinha vivido. Eu sabia cada palavra do padre, cada gesto dos fiéis, e mesmo assim, algo naquelas cores filtradas pelos vitrais me prendia. Por um instante, senti que o mundo se dilatava, que tudo se tornava lento e precioso, e que, talvez, a Dila estivesse algures ali, entre sombras e luzes, sorrindo sem que eu a visse.

Depois do almoço, o relógio parecia rir-se da minha impaciência. Eu e o Benjamim saímos com um propósito: encontrá-la. Mas o universo parecia conspirar. Nenhum sinal dela, nenhum aceno, nada. O vento carregava consigo o cheiro da tarde quente e, com ele, a frustração instalava-se como uma nuvem cinzenta sobre o meu peito. Mergulhei na televisão, mas os filmes eram sombras que apenas encobriam a ansiedade. Gulliver e figuras silenciosas moviam-se no ecrã, mas não conseguiam tocar o abismo que a ausência da Dila deixava.

Propus ao Benjamim outra ronda. Talvez agora… Talvez a sorte se lembrasse de mim. Mas a rua continuava vazia, como se a Dila fosse um sonho que se esquivava ao toque da minha mão.

– Olha, Tono – disse ele, percebendo o meu semblante fechado.
– Se sabes, faz alguma coisa – murmurei, quase em diálogo com a minha própria angústia.

Tirou do bolso umas moedas e disse, com aquele sorriso cúmplice que sempre conseguia acender alguma luz:

– Vamos comprar bombas de São João. Vamos animar a noite.

A pólvora, pensei, poderia talvez trazer a vida de volta ao silêncio. Voltamos à rua da Dila. Lançamos as primeiras explosões. O estampido seco reverberava pela noite, e o fumo misturava-se com o perfume da terra e das flores esquecidas nos quintais. Cada luz que subia no céu parecia um chamamento, uma tentativa de captar a atenção dela, de fazê-la surgir do nada.

E surgiu. A Dila apareceu, acompanhada da mãe e dos irmãos. O meu coração saltou, quase desatando-se da minha caixa torácica. Mas antes que eu pudesse alcançá-la com os olhos, recolheram-se para o andar de cima. Como uma estrela que se esconde atrás das nuvens, a Dila sumiu de vista e a minha esperança ficou suspensa no ar.

Mais algumas bombas. Mais estrondos. Mas nada. Nenhum olhar, nenhum sorriso, nenhum gesto. Só o fumo a subir e o eco das minhas expectativas desfeitas. Era como tentar agarrar um sonho que sempre escapa.

Regressamos, resignados. A noite estava fresca e a pólvora impregnava-se na roupa, mas o que realmente me pesava não era o cheiro nem o som, era o pensamento que a minha mãe havia lançado: a ideia de mudar de casa.

A possibilidade pairava sobre mim como uma sombra viva. Se me arrancassem destas ruas, desta terra, desta proximidade com a Dila, sentir-me-ia a perder um pedaço de mim. Mas ao mesmo tempo, uma estranha doçura se infiltrava na inquietação: se a vida muda, se as ruas mudam, se tudo muda, a Dila continuaria a existir em mim. Em memórias, em sonhos, nas explosões da pólvora, na cor que filtrava pelos vitrais, nos espaços vazios que apenas ela conseguia preencher.

Deitei-me tarde, com a mente ainda a brincar entre o real e o imaginário. O sono trouxe um alívio breve, mas a presença dela persistia, silenciosa, insistente. E percebi, pela primeira vez com alguma clareza, que o coração amadurece assim: em silêncio, entre ausências e esperas, entre fumo, luz e sonhos que se confundem com o mundo.