Entre o que se diz e o que se sonha
Sábado, 7 de Junho de 1975
Hoje, como era de esperar, não tive aulas. Saí de casa com uma ansiedade doce a subir pelo peito. Fui chamar o Benjamim, mas ele não estava, e a rua parecia mais silenciosa do que de costume, como se soubesse que hoje eu iria encontrar alguém que faria o meu coração bater de outro modo.
Atravessei a estrada e lá estava a Odília. O simples “Olá” parecia demasiado pequeno para tudo o que queria sentir.
— Olá… — disse ela, com um sorriso que sempre me desarmava.
— Olá… — respondi, tropeçando na própria voz, como se as palavras tivessem medo de se perder entre nós.
Entramos num trólei e sentamo-nos lado a lado. Silêncio. Um silêncio cheio de coisas não ditas. Por instantes, quase podia ouvir os nossos pensamentos:
"Se eu te der a mão, vais ouvir as palavras que guardo no pensamento e que não consigo dizer?"
Num momento, ela olha para mim com um sorriso terno.
"Não olhes para mim assim, que eu posso desfazer-me aqui mesmo." — gritei na minha mente.
Porém, este silêncio ensurdecedor libertou-me a voz e perguntei-lhe:
— Sabias que às vezes penso que tudo isto, o trólei, a rua, nós… é como um sonho que ainda não acabou?
— Um sonho? — perguntou ela, rindo baixinho. Juro que a risada ficou presa no meu peito.— E se acordarmos e tudo desaparecer?
"Então espero que nunca acorde…", respondi-lhe em pensamento, porque a boca não se atreveu a pronunciar.
— Nada irá desaparecer enquanto… existirmos. — disse, com medo, mas com uma ponta de coragem a tremer na voz.
Quando chegamos a S. Pedro, a irmã da Dila esperava-a na paragem. Acompanhei-as até perto de casa, e cada passo parecia prolongar um silêncio que falava por nós. No meu coração, os diálogos imaginários continuavam, como se eu pudesse arriscar palavras que a boca não ousava:
"Fica comigo só mais um pouco… até à noite, até que a rua se torne silêncio."
"Se eu pudesse, ficaria contigo para sempre… mas como dizer sem que pareça medo ou pressa?"
E eu imaginava que ela poderia responder assim:
"Também queria, mas não posso… ainda assim, sinto que estás aqui comigo."
O coração disparava a cada pensamento, cada respiração era uma pequena coragem. Eu queria ouvir-lhe as palavras, queria sentir a sua voz a dissolver a distância entre nós, mas apenas sorrimos, e o sorriso dela, leve, tremendo de riso contido, parecia dizer mais do que qualquer frase que eu pudesse inventar.
E no instante em que nos despedimos, o mundo pareceu suspenso por um segundo: as nossas mãos quase se tocaram, os olhos encontraram-se, e dentro de mim, tudo gritava para que ela dissesse o que eu só ousava imaginar.
"Então volta amanhã…" pensei que ela pudesse dizer, mas no fundo eu desejava que acrescentasse:
"Não me deixes ir embora. Fica comigo, nem que seja só em pensamento."
O coração continuava a bater rápido, e eu sabia que aquele momento não ia desaparecer, que cada passo dela a afastar-se deixava comigo uma memória viva, quente e doce, como se o mundo tivesse parado só para nós.
O resto da tarde passei com o Benjamim e o Manuel. Entre risos e brincadeiras, a cabeça estava cheia dela. Cada gesto dela repetia-se no meu coração: um sorriso, o jeito de mexer no cabelo, o modo como falava sem pressa.
À noite, fui ao cinema com o meu pai. As imagens e sons da sala misturavam-se com a minha imaginação. Vi a Dila em cada cena, cada gesto a lembrar-me que havia mundos dentro do meu coração que ninguém mais podia visitar.
Escrevo agora com dores no estômago — talvez cansaço, talvez um tumulto de emoções por digerir. Mas há uma calma estranha. Uma certeza de que hoje o meu coração cresceu mais um pouco, aprendendo que o que sentimos às vezes não precisa de ser dito. Que há palavras que vivem no silêncio e no gesto. Que os sonhos se misturam com a realidade. Que o amor, mesmo tímido, consegue deixar marcas profundas.
E enquanto escrevo, fico a imaginar o riso dela. O calor da mão dela na minha. O mundo inteiro reduzido àquele instante.
No fim, percebo que a beleza de tudo isto não está no que conseguimos dizer, mas no que conseguimos sentir em silêncio. Cada instante. Cada olhar. Cada sonho secreto. São passos no caminho de compreender quem somos e quem queremos ser. Talvez seja assim que o coração amadurece: não com grandes gestos ou palavras grandiosas, mas com pequenas experiências que guardamos só para nós. Experiências que nos ensinam a perceber a vida e a dor suave de sentir.
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