O Peso e a Leveza de um Dia

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Sexta-feira, 6 de Junho de 1975

A manhã chegou com o habitual tilintar de loiça vinda da cozinha e o cheiro do café acabado de fazer, tão familiar que me fazia sentir seguro mesmo antes de abrir os olhos. A luz filtrava-se pelas frestas da janela, espalhando-se como se quisesse avisar que o dia seria morno, tranquilo. Espreguicei-me demoradamente, ouvindo os sons vagos da rua: um carro que passava devagar, o riso distante de crianças e, lá longe, o rumor ténue de um rádio ligado. Por um instante, senti-me só e completo ao mesmo tempo, um sentimento difícil de explicar, como se estivesse à beira de perceber algo que ainda não tinha nome.

Foi já perto do fim da manhã que ouvi passos nas traseiras da cassa. O Manel apareceu-me à porta, olhos vivos e sorriso de quem guardava segredos. Mal me viu, atirou:
— Anda daí, Tono! Vamos ao Passal.

Não precisei de perguntar mais nada. Havia um brilho nos olhos dele que denunciava planos escondidos. Vesti-me à pressa, peguei na bicicleta e lá fomos, pedalando pelo sol quase a pino, sentindo o vento morno que nos batia na cara. Tudo parecia tão simples e, ao mesmo tempo, tão intenso: o cheiro do empedrado aquecido, o tilintar das bicicletas, o riso fácil de quem ainda não carregava os fardos do mundo.

Chegados ao Passal, demos voltas sem rumo, mas o Manel continuava inquieto, a olhar para todos os lados, como se o ar guardasse algo que só ele podia ver.
— Mas afinal o que é que andas a procurar? — perguntei, encostando a bicicleta ao muro.

Ele hesitou, os ombros a encolher, e disse baixinho:
— A irmã da Dila.

Levantei uma sobrancelha.
— E para quê?
— Queria falar com ela.
— Sobre quê?
— Sobre nada.

Ri-me. A resposta dele era tão absurda que só podia ser coisa de quem queria encobrir a própria ansiedade.
— Então anda cá todos os dias — disse eu, divertido —, que um dia há-de aparecer.

Mas naquele dia não apareceu. Voltamos para casa com os planos do Manel desfeitos, e a sensação de expectativa não cumprida ficou a pairar, como uma sombra leve, mas persistente. Ao chegar, percebi que o almoço ainda não estava pronto. Corri para organizar os livros, tentando afastar a sensação de cansaço que me pesava nos ombros.

Saí com o Benjamim, e a caminho da escola comecei a sentir um mal-estar estranho: uma dor de cabeça surda que parecia pulsar no ritmo do meu coração, uma fraqueza que me deixava à beira de desabar. Quando chegamos, o choque foi imediato:
— Dizem que o COPCON ocupou a escola! — avisou um colega, antes que conseguíssemos sequer pensar.

Fui informar-me e era verdade, estava a dar nas notícias do rádio. Mas a minha cabeça latejava tanto que nem conseguia processar a notícia. Deitei-me no jardim da escola, ouvindo o vento mexer nas folhas, o canto de um pássaro e, por um instante, senti-me flutuar entre o real e o sonho, sem saber qual dos dois era mais sólido.

Mais tarde, arrastei-me até à paragem do troleicarro, onde esperei pela Dila. Quando a vi ao longe, senti um aperto no peito: tentei sorrir, mas era impossível esconder o cansaço.
— Estás bem? — perguntou ela, franzindo o sobrolho com uma ternura que me fez corar.
— Não muito… — murmurei, sem conseguir olhar para ela nos olhos.

Fomos juntos até à paragem. O primeiro troleicarro passou e deixamo-lo ir, como se precisássemos de mais tempo naquele instante. Subimos no seguinte, e sentei-me ao lado dela, sentindo o calor da sua presença atravessar-me.
— Posso sentar-me ao teu lado? — perguntei, já sabendo que a resposta seria um sorriso silencioso.
— Claro — disse ela, e o mundo pareceu abrandar só para nós.

Encostei a cabeça ao banco, fechando os olhos, e senti que cada ruído à nossa volta se tornava distante, transformando-se num pano de fundo do meu próprio universo, onde a Dila era a única estrela visível. Cada gesto dela, cada palavra, por mais simples que fosse, gravava-se em mim com uma clareza quase dolorosa.

Quando finalmente saímos, o ar fresco da tarde fez-me sentir um pouco melhor. Ela olhou para mim, preocupada:
— Devias ir para casa e deitar-te.
— Não estou assim tão mal… — tentei argumentar, sem grande convicção.
— António, olha para ti. Vai para casa. Descansa.

Tinha razão. Despedi-me dela com um aceno cansado e segui para casa. Mal consegui tirar os sapatos, deixei-me cair na cama e apaguei.

Mais tarde, a minha mãe entrou, surpresa e preocupada:
— O que se passou contigo?
Expliquei-lhe, pouco a pouco, cada detalhe do dia, incluindo a ocupação do liceu pelo COPCON e a sensação estranha que me acompanhou. No fim acrescentei, com um sorriso tímido:
— Tenho fome.

Ela saiu e voltou com ovos estrelados e pão, e depois com café e sandes. Cada garfada parecia devolver-me um pouco de mim mesmo, como se a vida, apesar de tudo, tivesse o poder de se recompor em pequenas doses.

O resto da tarde passou com o Benjamim, entre cartas e toques na bola. Aprendi, sem dizer em voz alta, que por pior que um dia comece, sempre há espaço para pequenas vitórias, momentos que nos lembram que o coração, mesmo cansado, ainda pode encontrar leveza.

Quando a noite chegou, tingindo o céu de azul profundo, deixei-me envolver pelo cansaço suave de um dia vivido. Entre pensamentos soltos sobre a Dila, o Manel e o mundo que parecia maior do que eu podia compreender, adormeci, embalado pelo murmúrio distante do rádio da minha mãe. E sonhei, talvez, com tudo aquilo que ainda não tinha coragem de sentir em pleno dia.