O que fica depois do adeus
Quinta-feira, 5 de Junho de 1975
O dia nasceu hesitante, como se a manhã também precisasse de tempo para se desprender da noite. Havia uma luz pálida sobre a vila de S. Pedro, uma claridade sem convicção, dessas que parecem pedir desculpa por existir. Ainda antes de sair para as aulas, procurei-a. Não sei bem porquê — talvez porque o desejo de a ver fosse mais forte do que qualquer outra coisa, mais urgente do que o próprio tempo.
Quando finalmente a encontrei, o mundo pareceu reorganizar-se à sua volta, como se tudo o resto tivesse apenas estado à espera do seu primeiro olhar para começar o dia. Mas junto à alegria vinha um aperto discreto, uma sombra miúda no peito. Eu tinha algo a dizer-lhe, algo que não queria, mas que precisava.
Aproximei-me devagar, como quem prolonga os últimos passos antes de atravessar um limiar difícil. Cumprimentei-a com um sorriso que me pareceu mal ensaiado.
— Olá, Dila.
— Olá — respondeu, inclinando ligeiramente a cabeça. — Estás bem?
— Sim, e tu?
— Também… — disse, num tom que parecia querer preencher o silêncio.
O vento soprava leve, agitando-lhe os cabelos. Ela ajeitou uma madeixa atrás da orelha e olhou para mim com expectativa. Havia ali uma ternura tímida, quase infantil. Hesitei, como quem tenta adiar o inevitável.
— Então… vieste cedo hoje — comentou, esboçando um sorriso.
— Sim… Achei que era melhor.
Ela franziu o sobrolho, percebendo que algo se escondia nas minhas palavras. A manhã ficou suspensa, o tempo prendeu a respiração.
Respirei fundo e encarei-a com seriedade.
— Dila, tenho faltado ás aulas para vir encontrar-me contigo… — disse, tentando medir-lhe a expressão. Ela manteve-se atenta, imóvel, como se as palavras fossem vento a passar-lhe ao lado. — Por isso, acho que devo deixar de aparecer às terças e quintas-feiras.
Ela piscou os olhos rapidamente, talvez a processar o que acabara de ouvir. Depois, um leve rubor subiu-lhe ao rosto e um sorriso indecifrável desenhou-se-lhe nos lábios.
— Tens razão — respondeu, sem hesitação.
Fiquei a observá-la. Havia qualquer coisa escondida naquela aceitação tão imediata — um alívio? Uma defesa? Uma mágoa disfarçada? Não soube. Talvez fosse apenas o modo que ela encontrava de não se magoar.
Quis perguntar, mas ela desviou o olhar e mudou o rumo.
— E as aulas? — perguntou de repente, como se quisesse fechar o assunto e salvar o que restava da manhã.
— Vão andando.
— Tens estudado muito?
— O suficiente para não chumbar — disse, com um sorriso desajeitado.
Ela abanou a cabeça, divertida.
— És terrível, António.
— E tu? Tens andado bem?
— Sim… nada de novo. Os dias passam rápido.
— Pois passam… — murmurei, sentindo o peso do tempo dentro das palavras.
E segui o fluxo da conversa, como quem tenta não ver o que já sabe.
O troleicarro chegou, interrompendo o instante. Ela olhou para o relógio e suspirou.
— Tenho de ir.
— Sim… — murmurei, sem saber o que mais dizer.
Apertei-lhe a mão. Foi um instante breve, mas inteiro — a pele dela, quente e suave, ficou-me nas pontas dos dedos como um resto de lume. Depois vi-a subir para o transporte, afastar-se, e desaparecer no movimento do dia.
Segui para as aulas, mas a manhã arrastou-se, pesada, sem cor. As palavras do professor perdiam-se em eco. Senti-me ausente, como se metade de mim ainda estivesse junto à paragem, a vê-la partir.
Saí uma hora mais cedo e fui para casa. Lanchei em silêncio, tentei concentrar-me num trabalho, mas a cabeça insistia em repetir o mesmo diálogo, como um disco riscado: “Tens razão”, dizia ela, e eu voltava a sentir o vazio daquela razão.
Mais tarde, o meu pai chegou, e pouco depois apareceu o Manel, com aquele ar de quem nunca se deixa ficar quieto.
— Tono, anda comigo — disse, num tom conspirativo.
— Para onde?
— Ver se encontramos a irmã da Dila.
Sorri, meio sem vontade. Ele andava interessado nela, mas eu… bem, eu não precisava de desculpas para querer cruzar-me novamente com a Dila, nem que fosse por acaso, de longe.
Fomos até um sítio onde costumavam passar. Esperamos. O tempo escorria devagar, e o ar da tarde tinha um cheiro a promessa falhada. Nada. Talvez tivéssemos chegado tarde demais, ou talvez fosse apenas um desses dias em que o destino decide brincar connosco.
Voltamos para casa, e a noite veio sem pressa. Jantei. Depois, a televisão. Mas a luz foi-se abaixo, e por um momento o escuro tomou conta de tudo. Pensei em escrever à luz de velas — teria um certo encanto —, mas antes que acendesse alguma, a electricidade voltou, fria e prática, a desfazer o breve feitiço.
Fiquei então a ouvir o silêncio, esse intervalo entre a luz e a sombra. A casa parecia suspensa, e eu também. Os dias começavam a parecer-me mais curtos, ou talvez fosse eu que os enchia demais com pensamentos.
Fechei o caderno, deixando as palavras repousar, e deitei-me.
Lá fora, o vento voltou a soprar — leve, insistente, como de manhã — e por um instante pareceu-me ouvir o nome dela perdido no ar.
Talvez fosse apenas o sonho a começar.
Ou o coração, teimoso, a continuar.
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