O silêncio entre dois mundos
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Quarta-feira, 4 de Junho de 1975
O dia nasceu sem pressa, como se também ele hesitasse em começar. A luz, antes tímida, espalhava-se pela parede em traços dourados que pareciam respirar. Entre livros abertos e folhas rabiscadas, deixei-me ficar, prisioneiro de uma calma que não era paz — apenas rotina. Estudar tornara-se uma forma de atravessar o tempo, não de o vencer.
Ao meio-dia, a casa cheirava a pão e pó de lápis. Saí com os livros debaixo do braço, o corpo a caminho da escola, mas o pensamento noutro lado — talvez num lugar onde o vento tivesse o nome da Dila. As aulas sucediam-se como um eco distante; eu ouvia as vozes, mas não as palavras. E quando o Benjamim me chamou, no intervalo, senti o alívio de quem encontra uma brecha no tédio.
— Último tempo? — perguntou ele, com aquele ar de quem já sabia a resposta.
— Dispensável — respondi, sorrindo.
E assim foi. Fugimos antes do toque, sem culpa, como dois miúdos que acreditam que o mundo começa onde o horário termina.
Em casa, engoli o lanche sem gosto. Logo depois, fomos levar comida ao cavalo — o velho ritual que nos ligava mais à terra do que a qualquer lição. O cheiro do feno, o ranger das rédeas, o olhar tranquilo do animal — tudo isso fazia parte de uma simplicidade que eu já começava a valorizar.
Seguimos para o monte, onde o vento trazia consigo o cheiro quente da tarde. Treinamos karaté entre risos e gritos de desafio. Os movimentos eram imperfeitos, mas havia neles uma verdade qualquer — o corpo a aprender o que a alma ainda não sabia dizer.
O Manel apareceu de repente, e a energia redobrou. Eu e o Benjamim pegamos em dois paus, improvisando uma luta. O som da madeira a chocar ecoava no vale abaixo. Num instante de descuido, o golpe dele acertou-me no dedo. A dor foi tão clara que me fez rir. O riso é, às vezes, a única forma de não ceder à fraqueza.
Com o dedo a latejar, decidi regressar a casa. A estrada parecia mais longa do que nunca. Pelo caminho, vi o irmão da Dila — uma sombra familiar que me lembrou que ela também respirava o mesmo ar, a pouca distância. Não lhe falei; talvez o silêncio dissesse mais do que qualquer palavra.
Em casa, o jantar decorreu sem histórias. A minha mãe perguntou pelo dedo, eu disse que não era nada. Coloquei gelo, e o inchaço começou a ceder. Agora, enquanto escrevo, a dor transformou-se num pulsar surdo, quase tranquilo — como se o corpo guardasse memória do golpe para que eu não o esquecesse.
Sobre a secretária, a fotografia da Dila devolve-me um olhar que o tempo ainda não estragou. Há algo de terno e inquietante naquele rosto — uma promessa que não sei se me pertence. Fico a olhar demasiado tempo, até o mundo se dissolver em silêncio.
— Estás a pensar outra vez em mim, não estás? — ouço-a dizer, na voz que a memória inventa.
— Sempre — respondo-lhe, sem ironia.
— E quando é que deixas de sonhar?
— Quando o sonho deixar de ser o único sítio onde posso estar contigo.
Apago a luz devagar. Lá fora, o vento move as folhas com o mesmo rumor das suas palavras. O sono virá, e com ele talvez a imagem dela, nítida como a manhã que ainda não chegou.
Amanhã será outro dia. Mas hoje — hoje ainda é o tempo da Dila.
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