O Dia em Que Tudo Aconteceu
Terça-feira, 3 de Junho de 1975
A manhã acordou inquieta, como se também ela tivesse pressa de ver o que o dia prometia. Eu, encostado ao portão, batia com o pé no chão, tentando matar o tempo que teimava em não morrer. O Benjamim prometera aparecer cedo — e as promessas do Benjamim valiam tanto como um fósforo molhado. As sombras das árvores alongavam-se no quintal, o sol subia sem cerimónias, e o silêncio parecia gozar comigo.
Quando ele apareceu, já o relógio roçava as onze.
— Estás a gozar, não estás? — disparei, braços cruzados, como um juiz sem toga.
Ele encolheu os ombros, rindo-se daquele jeito insolente que só ele sabia.
— Acordei tarde. O mundo não acabou. O que não for feito agora fazemos depois.
Pois. “Depois.” Palavra traiçoeira. O tempo, esse animal selvagem, já nos mordera os calcanhares — e a manhã, nossa cúmplice, fugira.
Fui para a escola com o sabor amargo de quem perdeu uma batalha sem importância, mas que ainda assim doía.
O Acidente
O troleicarro gemia pela rua acima como um velho cansado. Encostei a testa ao vidro e deixei que a cidade passasse em fragmentos — ruas, rostos, o rumor das vidas alheias. A cabeça, essa, ainda presa à conversa da manhã.
Quando desci, o pensamento ficou a meio caminho da realidade. Atravessava a rua, distraído, quando o mundo se torceu num grito de travões e metal.
Um clarão, um som seco, e depois silêncio.
Estava no chão, com o corpo meio dobrado, o coração aos saltos. A roda dianteira de um carro prendia o meu pé como um castigo. Uma senhora saiu do carro, pálida, tremendo.
— Meu Deus, estás bem?!
Mexi o pé. Nada partido.
— Acho que sim… Foi só um susto.
Levantei-me, sacudi o pó da roupa e senti-me idiota.
— Peço desculpa, não vi o carro.
Ela abanou a cabeça, aliviada mas ainda assustada.
— Importante é que estás bem. Mas tem mais cuidado, rapaz!
Continuei o caminho, o corpo inteiro mas o espírito trémulo. O tornozelo doía, e dentro de mim um pensamento martelava: podia não estar aqui agora. Há dias que nos dobram por dentro sem que ninguém repare.
O Encontro com a Dila
Esperei-a com o nervosismo de quem tenta recuperar o equilíbrio depois de ver o chão fugir-lhe. Quando ela apareceu, vinda do outro lado da rua, parecia trazer consigo um bocadinho de ordem ao caos do dia.
— Que cara é essa? — perguntou, franzindo o sobrolho. — Aconteceu alguma coisa?
— Aconteceu — respondi. — Quase fui atropelado.
— O quê?!
O espanto dela fez-me sorrir, e só então percebi o quanto me sabia bem vê-la preocupar-se. Contei-lhe tudo, sem dramatismos, mas o brilho aflito dos seus olhos bastava.
— António, não brinques com essas coisas… — disse, num tom que era metade zanga, metade ternura.
— Não estou a brincar. Mas vê? Estou aqui. Inteiro.
O silêncio que se seguiu pesou o suficiente para nos aproximar. E, como quem muda de assunto para afastar o medo, ela suspirou:
— Sabes o que aconteceu depois de domingo?
— Quando foste embora?
— Sim. Os meus pais ralharam-me.
— Só isso? — perguntei, meio trocista.
— Só isso — respondeu, com um sorriso que lhe tremia nos lábios.
Depois lembrei-me.
— A fotografia.
Tirei-a do bolso, um rectângulo pequeno onde o tempo parecia suspenso.
— Aqui está. Guarda-a bem desta vez.
Ela recebeu-a como quem segura uma flor frágil.
— Obrigada.
— De nada.
E nesse instante, o mundo pareceu parar outra vez — mas agora sem perigo, só a leve vertigem do que podia ser amor.
Explosões e Fuga
A tarde voltou à normalidade aparente, mas eu sentia-me estranho, como se o corpo ainda tremesse por dentro. Quando o Benjamim e o Manel apareceram, a rotina de rapazes devolveu-me à terra.
— Hoje fazemos um cartucho de dinamite a sério — anunciou o Benjamim, com o brilho habitual de quem vive à beira da asneira.
E lá fomos nós, pequenos alquimistas da infância, misturando pólvora e curiosidade.
À noite, com o céu a segredar promessas de perigo, saímos para o descampado. O rastilho aceso tremeluzia como um coração nervoso.
— Vamos a isto! — gritou o Benjamim.
Mas a “dinamite” morreu em fogo manso, um fumo tímido que se perdeu no vento.
— Bolas… — resmunguei.
O Manel riu-se.
— Somos uns génios, mas de pacotilha.
Rimo-nos também, até que o riso se transformou em corrida — alguém ouvira, alguém vinha. Fugimos, tropeçando no escuro, ofegantes de vida.
Em casa, fechei a porta e encostei-me a ela. O peito ainda a arder, o pensamento preso àquela sequência absurda de acasos e sobrevivências.
Deitei-me, e o silêncio da noite fez-se espesso. Pensei nela — na Dila, no carro, no rastilho. Tudo tão perto do fim, e ainda assim tudo tão vivo.
Há dias em que o mundo se inclina, e a gente percebe — sem saber explicar — que cresceu um pouco mais.
Adormeci com essa certeza a rondar-me o sono, meio sonho, meio promessa: a vida ainda mal começara, e já doía ser tão inteira.
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