A sua presença mesmo nas coisas pequenas

Segunda-feira, 2 de Junho de 1975

Um som insistente arrancou-me do torpor da madrugada, e por um instante duvidei se ainda sonhava.
— Anda, Tono! Preciso que venhas comigo entregar um papel.

A voz do Benjamim atravessava a escuridão do quarto como um sol tímido entre nuvens densas. Esfreguei os olhos e, por um instante, as sombras pareceram mexer-se por vontade própria. 

— Mas é coisa rápida? — perguntei, ainda meio enredado no sonho.
— Rapidíssima! Vá, despacha-te!

Vesti-me à pressa, lavei-me e subi na bicicleta. O ar frio da manhã trazia consigo pequenos fragmentos de lembranças de momentos passados com a Dila: risos, gestos, pequenos detalhes que se cruzavam com o meu pensamento sem que eu quisesse. Pedalei rua abaixo, concentrado na tarefa, mas sentindo uma curiosa leveza no ar, uma presença que parecia acompanhar-me.

A entrega do papel foi breve, quase imperceptível no tempo, mas no regresso cada pedra da rua, cada sombra das árvores, parecia ganhar um contorno diferente. Então surgiu o Manel, e ao lado dele o Vasco, um dos irmãos da Dila. O meu coração acelerou, mas sem razão evidente.

— Olha quem está aqui! — disse o Manel, batendo-me no ombro.

O sorriso do Vasco trouxe-me à memória certas recordações agradáveis, mas sem intensidades desmedidas. Mais tarde levei-o a casa; pedalei com ele montado no quadro da bicicleta até mais próximo de sua casa, e cada pedalada parecia alongar o tempo de forma quase poética, apenas pelo prazer de seguir o caminho com alguém conhecido.

De tarde voltei à escola. Cada aula parecia lenta e, ao mesmo tempo, viva. Vaguei entre sombras e ecos do dia, atento a pequenos gestos e sons que faziam parte da rotina. Às seis e dez, finalmente livre, regressei com o Manel. Conversamos sobre banalidades, mas o dia parecia ter pequenos recantos que guardavam memórias e detalhes que me faziam sorrir.

Em casa, no lanche e no jantar, tudo parecia simples, mas reconfortante. O tremeluzir da luz no copo de água, o movimento das cortinas ao vento, o eco de risos entre as paredes — pequenas coisas que me lembravam que a vida se revela tanto no palpável como no intangível.

Quando me deitei, deixei que o mundo e o sonho se misturassem. Algumas imagens passaram pelo meu pensamento: gestos, sorrisos, sombras. Percebi que não precisava da presença dela para que o dia tivesse cor; bastava lembrar-me de certos detalhes que tornavam tudo um pouco mais vivo.

O sono levou-me lentamente, deixando uma sensação de leveza. Cada dia, mesmo o mais simples, podia conter pequenas surpresas, e aprender a vê-las era, talvez, a única magia necessária.


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