Os Passos de um Coração

Domingo, 1 de Junho de 1975

O sol mal tinha despontado no horizonte quando saí da cama, ainda a esfregar os olhos meio adormecidos, mas com um entusiasmo que me despertava mais do que qualquer noite bem dormida. Ia finalmente buscar a bicicleta. Há dias que andava com aquela expectativa, como se fosse reencontrar um velho amigo.

Vesti-me à pressa, engoli o pequeno almoço sem dar muita atenção ao sabor e saí com o meu pai, que parecia menos apressado do que eu. O ar fresco da manhã bateu-me no rosto, fazendo-me sentir desperto.

Seguimos em direcção à oficina do mecânico, um homem de poucas palavras, mas de mãos hábeis. Eu imaginava já o momento de ver a bicicleta pronta, talvez com um brilho novo, talvez com aquele cheiro a ferro e óleo que tanto caracterizava as oficinas. Mas, ao chegarmos, encontramos apenas a porta fechada e um silêncio que denunciava a sua ausência.

O meu pai, com a tranquilidade de quem não se deixa abalar por imprevistos, sugeriu que fôssemos directamente a casa da minha avó. Eu, ainda com a excitação contida, acabei por concordar. Afinal, se a bicicleta teria de esperar, ao menos o dia começava com a familiaridade acolhedora da casa da avó, onde o cheiro a café misturado com pão acabado de sair do forno era uma promessa de conforto.

Estava a ajudar o meu pai quando o Manel me veio chamar. Fui a minha casa e pouco depois a casa da Dila para ver se ela estava em casa, mas antes de lá chegar encontrei a mãe dela a falar com outra pessoa. Eu continuei a caminhar e viramos para outro caminho. Como reparamos que estávamos fora de vista, paramos e assim ficamos algum tempo até que ela passou para cima. Fui para casa despedindo-me do meu colega.

O meu pai veio ter comigo e fomos buscar a bicicleta. Almocei e esperei pelo meu colega Benjamim. Pouco depois apareceu e fomos ao encontro da Dila.

De longe avistei a Dila no Alto do Depósito e como não havia caminho para lá, fui a pé a empurrar a bicicleta. Cheguei ao pé dela e pedi-lhe desculpa por chegar atrasado. Como estava muito sol, resolvemos ir para uma sombra. Eu novamente desci a encosta da outra parte do depósito. Lá como havia uma estrada e uma sombra agradável, ficamos lá.

A Dila como estava a olhar para a bicicleta perguntei-lhe se queria andar. Ela respondeu-me que sim. Segurei na bicicleta e ela montou. Andou-se uns passos, mas ela voltou para trás.

Estava eu a olhar para ela quando tristemente me disse que tinha perdido a minha fotografia, eu disse-lhe que não se incomodasse que eu lhe dava outra. Eu como vi que ela queria andar outra vez de bicicleta levei-a até ao largo da farmácia onde o espaço aberto e o chão mais liso tornavam tudo mais fácil.

— Agora tenta pedalar sem medo — encorajei.
 
A Dila montou na bicicleta, ajeitou o vestido e empurrou o pedal hesitante. No primeiro arranque, a roda dianteira oscilou e ela soltou um pequeno grito, agarrando-se com força ao guiador.

— Eu seguro! — ri, segurando-a pelo selim.

— Não me largues já! — pediu, a voz entre a ansiedade e a excitação.

Aos poucos, ganhou confiança. Dei-lhe um leve impulso e ela pedalou sozinha alguns metros. O riso nervoso transformou-se numa gargalhada solta.

— Estou a conseguir! — exclamou, orgulhosa.

Mas a alegria durou pouco. Quando tentou travar, apoiou o pé no chão de repente e desequilibrou-se. Eu corri para ampará-la, mas ela já estava meio caída, apoiada num joelho.

— Ai! — gemeu, esfregando a perna.

— Estás bem? — ajoelhei-me ao lado dela.

Ela ergueu a cabeça e riu, sacudindo o pó das mãos.

— Só me arranhei um bocadinho.

— És valente — elogiei. — Queres tentar mais uma vez?

— Só mais uma, mas desta vez segura-me melhor!

Ajeitou-se de novo e pedalou mais um pouco, agora mais segura. Quando finalmente desmontou, a sua expressão era de pura felicidade.

— Foi tão giro! — disse, com os olhos brilhantes. — Obrigada, António.

Ia dizer-lhe que podíamos repetir outro dia, mas nesse instante a expressão dela mudou. Segui o seu olhar e vi a mãe dela a aproximar-se.

A Dila compôs o vestido rapidamente e murmurou:

— A minha mãe…

Não houve tempo para mais palavras. Endireitei-me e, antes que a situação se tornasse incómoda, montei na bicicleta.

— Até amanhã — disse-lhe baixinho, piscando-lhe o olho antes de partir com o Benjamim.

Enquanto pedalávamos pela rua, olhei para trás. Ela estava junto da mãe, com um ar sério, mas, por um breve instante, os nossos olhares cruzaram-se. E no dela, ainda havia aquele brilho. Aquele que me dizia que nada estava perdido, que ainda éramos nós, apesar de tudo.

A vinda para casa foi silenciosa. O Manel ia absorto nos pensamentos dele, e eu nos meus. Quando passamos em frente à casa da Dila, vi o pai dela à porta, de braços cruzados, a observar os miúdos que brincavam no quintal. Ela estava ali, entre os irmãos, mas, ao perceber-nos, virou ligeiramente o rosto, sem nos encarar diretamente. Mesmo assim, o seu perfil denunciava que tinha dado pela nossa passagem.

O resto da noite arrastou-se sem pressa. Jantei, conversando com os meus pais sobre trivialidades, e depois saí com o Benjamim e o Manel para o cinema. O filme era apenas um pretexto para nos distrairmos, mas a minha mente não estava ali. Sentia ainda o peso daquele olhar ao fim da tarde, aquele instante suspenso no tempo, e perguntei-me se ela estaria a pensar o mesmo.

A noite fechou-se sobre a vila, e o sono chegou sem que desse por ele.

O resto da noite deslizou-se em conversa leve com os meus pais, e depois cinema com os amigos. Mas a minha mente estava noutro lugar: naquele olhar trocado, naquela bicicleta que, mais do que rodas e metal, me ensinara a sentir com mais profundidade. A noite fechou-se sobre a vila, e quando finalmente adormeci, foi com a sensação de que algo dentro de mim crescera, silencioso, como se o dia tivesse plantado sementes de um coração que começava a perceber o mundo e a Dila, ao mesmo tempo.


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