O Toque da Chuva
Sábado, 31 de Maio de 1975
A manhã nasceu cinzenta, mas parecia sussurrar segredos de nuvens que ainda não se tinham dissipado. O ar estava húmido, e as ruas brilhavam como se refletissem não só a água da chuva, mas também pensamentos que eu ainda não conseguia nomear. Cada passo meu fazia um eco, mas não sei se era o calçado a tocar a calçada ou o coração a bater mais rápido.
Saí cedo com a Celeste. A acompanhei ao enfermeiro para uns curativos, e levei o guarda-chuva, embora a chuva se confundisse com o nevoeiro dos meus pensamentos. Foi nesse caminho que a vi, imóvel junto a um muro, protegendo-se da chuva fina. Parecia ao mesmo tempo presente e intocável, como se fosse parte de um sonho que eu tentava agarrar sem nunca conseguir.
— Olá, tão cedo na rua? — disse, mas a voz parecia vir de longe, como se eu falasse através da água da calçada.
— Tenho de ir a casa da minha tia. E tu?
Expliquei-lhe a minha missão matinal, e ela sorriu. Um sorriso que parecia tocar-me por dentro, desenhando sombras suaves de luz nos cantos do peito. Falamos ali, com o tempo a dobrar-se em torno de nós, e senti que algo crescia, silencioso e firme, sem que eu ousasse nomeá-lo.
Continuei caminho com a Celeste, mas cada passo era acompanhado pelo fantasma do sorriso da Dila. Passamos em frente à sua casa e, mesmo de longe, senti a presença dela a vibrar, como se a rua inteira tivesse memórias suas guardadas entre as pedras molhadas.
O curativo foi rápido, quase trivial. Na volta, a chuva voltou a tocar-me, mas desta vez parecia feita de lembranças, de ecos do que tinha acontecido pouco antes. E então lá estava ela, surgindo do nada, sem guarda-chuva, como se tivesse atravessado o próprio ar até mim.
— Ainda por aqui? — perguntei, mas a pergunta soou estranha, como se fosse dita dentro de um sonho acordado.
— Fiquei retida na casa da minha tia. Depois meti conversa com a minha prima e perdi a noção do tempo. Agora estou a pagar a distração.
Levantei o guarda-chuva, e ela aproximou-se, colando-se ao meu lado. A chuva caía em cortinas cerradas, mas não sentíamos o frio, só a intensidade do instante, e o toque dos nossos ombros parecia criar um mundo só nosso, feito de água e silêncio. Um trovão ribombou ao longe, e ela agarrou-me pelo braço, rindo logo de seguida, e eu senti que ria também sem saber se era dela ou meu próprio coração.
— Olha para mim, como se nunca tivesse ouvido um trovão na vida!
— Nunca se sabe, pode ser um sinal dos deuses.
— Ou um castigo, quem sabe — disse ela, mordendo o lábio com brilho malicioso, e por um instante tudo se fundiu: o trovão, a chuva, o mundo e nós, como se não houvesse nada além desse instante líquido.
Meia hora passou sem que percebêssemos. Quando a chuva acalmou, ela afastou-se, pisando as poças que pareciam espelhos de pequenos universos, e deixou-me a sensação de que tinha tocado algo eterno, mesmo que ninguém mais pudesse ver.
— Bom, já posso seguir sem me afogar. Obrigada pelo abrigo. — Sorriu, hesitando por um instante, e depois partiu, levando consigo a parte do dia que me pertencia.
Em casa, almocei, e à tarde acompanhei o meu pai ao cinema. O Porto estava cinzento e silencioso, mas eu sentia ainda o calor da presença dela nos dedos, nos ombros, na leve pressão do toque que me deixou acordado e sonhando ao mesmo tempo. Mais tarde, voltei ao cinema sozinho, e a cidade parecia um filme que se repetia, mas com cenas que só eu podia perceber, pequenas lembranças de chuva, risos e silêncio compartilhado.
Agora escrevo estas linhas e percebo que cada palavra tenta prender o que talvez nunca possa ser completamente retido: a Dila, a chuva, o tempo suspenso, o meu coração a amadurecer em segredo. Amanhã será outro dia, mas hoje ficou gravado, entre sonho e realidade, como se a chuva tivesse deixado na calçada impressões do que sentimos, e ninguém mais pudesse ver.
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