Entre a Chuva e o Talvez...
Sexta-feira, 30 de Maio de 1975
A noite desfez-se devagar, como um lençol húmido que o dia vai puxando do corpo do mundo. O céu nascera pesado, e o ar cheirava a terra recém acordada. Dentro de mim havia uma inquietação antiga, dessas que não se explicam: apenas pedem caminho. Vesti um casaco leve, agarrei o Mau Tempo no Canal — que, naquele dia, me pareceu um presságio mais do que uma leitura — e deixei a casa no mesmo silêncio em que a encontrei.
O Alto do Depósito é o meu refúgio desde sempre. Ali, o vento parece ter alma, e as árvores falam comigo num idioma que não se aprende. Sentei-me sob uma delas, larga e antiga, e deixei que o mundo me esquecesse. A relva ainda estava molhada, mas o frio era bom. Abri o livro e comecei a ler. Vitorino Nemésio falava das ilhas, do amor e do mar como quem fala da própria respiração — e eu, enredado nas suas palavras, já não sabia se lia ou se sonhava.
A chuva chegou de mansinho, primeiro em pingos dispersos, depois em ritmo constante, tamborilando nas folhas por cima de mim. Era uma música discreta, quase de embalar. Eu permanecia seco, mergulhado nas frases, como se o livro fosse abrigo e o mundo apenas um rumor distante.
Foi então que o Benjamim apareceu, com aquele passo leve e o ar inquieto de sempre.
— O que fazes tu aqui sozinho, com este tempo? — perguntou, metendo as mãos nos bolsos.
Levantei o livro para que ele visse a capa.
— Estou a ler. E tu, por onde andaste?
— Ah, por aqui e por ali. — Sentou-se ao meu lado. — Mas conta-me, que livro é esse?
Falei-lhe um pouco sobre o romance. Ele ouviu com atenção, embora eu soubesse que a sua cabeça já andava noutros planos — o Benjamim nunca foi homem de permanecer quieto por muito tempo. Mesmo assim, ficou ali comigo até o relógio me lembrar que o destino daquela tarde não era a leitura.
O Encontro com Dila
Passava pouco das três quando encontrei a Dila e a irmã. O céu abria fendas de luz e o vento brincava-lhe com o cabelo, fazendo-a parecer parte do próprio dia — leve, inquieta, impossível de agarrar.
Havia algo que me pesava no peito. Sabia que tinha de o dizer.
— Dila, preciso de falar contigo. É importante. — Ela olhou-me com atenção. — Nestes últimos dias notei uma grande diferença em ti. Eu sei que tenho andado maldisposto, por estupidez minha, mas... se achas que sou um estorvo, eu deixo de te ver. Nunca mais nos encontraremos.
Ela arregalou os olhos e abanou a cabeça.
— A culpa é minha. Toda minha. — Fez uma pausa, como se procurasse as palavras certas. — No primeiro dia fui-me embora porque estava com pressa, e no segundo, foi por causa dos meus irmãos… estavam demasiado perto, percebes? Não queria que falassem.
Tentei interromper, mas ela ergueu a mão para me travar.
— Deixa-me acabar. — Suspirou. — Nunca foi minha intenção afastar-te. Eu gosto de estar contigo, mas às vezes é difícil…
As palavras dela entraram em mim como um bálsamo. Tudo o que me parecia confuso encontrou sentido, e vi, num instante, a pressa infantil dos meus pensamentos. Baixei os olhos e suspirei.
— Tens razão. Desculpa.
Ela sorriu levemente, e nesse sorriso coube o alívio do mundo inteiro.
A tensão dissipou-se. Ficamos por instantes suspensos nesse breve acordo de paz. Depois ela disse que precisava de ir embora e despediu-se com um sorriso nos lábios, mesmo quando o Manel apareceu ao longe.
Benjamim, mal o viu, correu logo para ele e foram jogar cartas. Fiquei sozinho, sem saber muito bem o que fazer, com o coração ainda a pulsar no compasso do que fora dito.
O Monte e a Despedida
Do alto do monte, o dia parecia preso entre o cinzento e a luz. A irmã da Dila passou primeiro, mas ela não vinha com ela. Depois vi-a — mais ao longe, o passo ligeiro, o cabelo apanhado num gesto distraído. Vinham com ela o irmão e a irmã, e juntos formavam um pequeno retrato de vida que me doeu pela sua simplicidade.
Aproximei-me. Falamos, e tudo parecia fácil. A Dila tinha um dom raro: fazia o tempo abrandar. Até que, de súbito, ela ficou tensa.
— O que foi? — perguntei, notando a mudança na sua expressão.
Ela olhou em direcção à estrada e depois voltou-se para mim.
— Aquela senhora… — murmurou.
Segui o seu olhar e vi uma mulher que caminhava na nossa direcção.
— Conheces?
— Sim… — respondeu, hesitante. — Prefiro evitar confusões.
Vi-lhe o rosto fechar-se, como uma flor a proteger-se da intempérie. Sem uma palavra, afastou-se com a irmã e correu em direcção ao monte. Eu fiquei ali, parado entre o desconcerto e a saudade, olhando a mulher que se aproximava.
— Porque é que a Ana Maria fugiu? — perguntou ela, franzindo o sobrolho.
Encolhi os ombros, fingindo ignorância. Ela seguiu caminho, sem insistir.
Pouco depois passou por nós outra vez, e nós — num impulso tolo e juvenil — começamos a gozar. O riso serviu para esconder o vazio, como se o riso pudesse enganar o coração.
Quando a Dila voltou, vinha apenas buscar o irmão. Aproximou-se com passos leves, e eu despedi-me dela com um aceno discreto.
— Amanhã vens?
Ela hesitou por um instante antes de responder:
— Talvez…
E partiu.
Fiquei com aquele “talvez” a ecoar dentro de mim. A tarde pareceu estender-se ao sabor da incerteza — como se o tempo, também ele, esperasse pela resposta dela.
O céu voltou a fechar-se e a chuva regressou, fina, persistente. Caminhei devagar para casa, com o sabor do dia ainda preso aos pensamentos.
Quando a noite chegou, deitei-me a ouvi-la cair na janela. Cada gota soava a lembrança, a promessa e a perda. E, entre o sono e o sonho, senti-me crescer — sem dar por isso — no silêncio onde o amor aprende a ser espera.
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