Entre o Silêncio e o Sol

Quinta-feira, 29 de Maio de 1975

O feriado amanheceu sem pressa, mas dentro de mim havia um peso que parecia grudar-me aos ossos, uma melancolia que nem o sol a brilhar lá fora conseguia dissipar. A manhã prometia festa nas ruas, mas no meu peito corria apenas um silêncio inquieto, feito de perguntas que não ousava formular. Levantei-me tarde, arrastando-me entre sombras de preguiça e de pensamentos. O mundo fora de casa sorria sem me notar; dentro, tudo parecia suspenso, como se cada minuto estivesse à espera de algo que eu não conseguia identificar.

A manhã passou sem acontecimentos que valessem a pena registar. Tinha decidido entrevistar um mineiro à tarde, talvez para sentir-me útil ou apenas para quebrar a monotonia. Mas a vontade desvaneceu-se, como tantas ideias que brotam e morrem antes de se tornarem realidade.

O Benjamim, o Manel e eu subimos até ao “Alto do Depósito”. O tempo ali fluiu sem pressa, entre conversas soltas e longos silêncios. Cruzámo-nos com duas raparigas, trocámos algumas palavras sem grande propósito além da distracção, e a tarde foi deslizando entre a leveza da amizade e o peso da minha inquietação.

Ao voltar para casa, fui recebido pelo olhar carregado da Nanda. O coração tremeu-me antes mesmo das palavras: a Celeste tinha-se queimado com água a ferver.

— Foi grave? — perguntei, o peito apertado, quase sufocado pela ansiedade.

— Parece que não muito — respondeu ela, com aquele tom que mistura preocupação e contenção. — Mas deve estar com dores. Tem o braço enfaixado.

Quando a Celeste chegou, tentei perceber pelo seu rosto se a dor era suportável.

— Estás bem? — perguntei, hesitante.

— Sim, não te preocupes. Já passou — disse ela, esforçando-se por sorrir.

Observei-a, tentando descodificar se as palavras eram apenas um escudo ou a verdade. Antes que pudesse insistir, acrescentou, quase num sussurro:

— Vi a Dila há pouco… Estava a cortar erva ali perto.

O nome dela apagou o resto dos meus pensamentos. Um impulso irrefreável tomou conta de mim, e saí de casa sem mais explicações. Caminhei até ao local indicado, e lá estava ela, concentrada, de cabeça baixa. Hesitei um instante, com o coração a disparar. O dia anterior pesava-me na consciência; havia algo que precisava de ser dito.

— Dila… — chamei, baixinho.

Ela ergueu o rosto. O seu olhar era calmo, mas trazia uma sombra de distância que me apertou o peito.

— Queria pedir-te desculpa pelo que aconteceu ontem… — disse, tentando manter a voz firme.

Ela ficou em silêncio por alguns segundos e depois acenou levemente com a cabeça.

— Eu também te queria pedir desculpa… — respondeu, num tom mais brando do que eu esperava.

A tensão entre nós dissipou-se lentamente, mas notei algo diferente nela, uma inquietação subtil, e não tardou a revelar-se. Ciúmes. Na forma como falava, nos olhares desviados, nos pequenos silêncios. Tentei manter-me sereno, mas o aperto no peito cresceu.

— Estás estranha hoje… — comentei, tentando soar casual.

— Estranha, eu? — soltou uma pequena gargalhada sem alegria. — Não, estou como sempre.

— Não me parece… — insisti, fitando-a.

Ela suspirou e desviou o olhar para o chão, passando a mão pela erva que cortava.

— Vi-te hoje à tarde… com aquelas raparigas — disse, num tom neutro, mas carregado de ressentimento.

— Ah… — hesitei. — Foi só conversa de nada. Nem sei os nomes delas.

— Pois. Mas divertiste-te, não foi? — O olhar que me lançou era um misto de desafio e mágoa.

— Dila, a sério? Estás a ser injusta. Sabes que não foi nada.

Ela mordiscou o lábio e encolheu os ombros.

— Talvez. Mas às vezes parece que tu… não sei, que não te importas tanto quanto eu.

Aquelas palavras bateram-me como um murro no estômago. Tentei protestar, explicar, mas naquele instante percebi que não havia nada que pudesse dizer para mudar o que ela sentia.

Ela disse que tinha de ir, despedindo-se de forma apressada, deixando-me sozinho, perdido nos meus próprios pensamentos. O Manel chegou entretanto, e conversamos um pouco, mas a minha mente estava longe, absorvida pelo peso daquilo que ficara entre mim e a Dila.

À noite, jantei sem apetite, deixando que o silêncio da casa me envolvesse. Algo magoara a Dila, algo que eu fiz sem me dar conta. Senti uma culpa silenciosa, difícil de nomear, e deitei-me fitando o tecto, à procura de respostas que não existiam. O dia terminou com um amargo desgosto no peito. Adormeci tarde, embalado por pensamentos inquietos, sentindo que o coração cresce em silêncio, entre o amor que desperta e a dor que não se vê.


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