Entre Murmúrios e Silêncios
Quarta-feira, 28 de Maio de 1975
Acordei com um sobressalto. Um aperto firme nos ombros e a voz impaciente do Manel rasgaram o torpor da manhã:
— Anda lá, Tono! Preciso que venhas comigo a casa da Dila. A mãe dela tem uns bancos que quero pedir emprestados.
O calor do quarto fazia o ar pesado e viscoso, como se o dia estivesse preso numa teia que eu ainda não sabia atravessar. O coração acelerou, estranho e ansioso, ao ouvir a palavra “Dila”. Era sempre assim: um arrepio súbito, uma mistura de curiosidade e medo, a sensação de que qualquer gesto podia alterar algo profundo e secreto dentro de mim. Levantei-me, ainda meio adormecido, a alma flutuando entre o sono e a vigília, entre o real e o que poderia imaginar.
Quando chegamos, o Manel entrou sem olhar para trás. Eu fiquei à porta, encostado ao muro, sentindo o chão irregular sob os sapatos e o vento brincar com umas folhas secas. Por um instante, imaginei a Dila a espreitar pela janela, talvez a reparar em mim, talvez a sorrir de leve, como se o tempo se dobrasse sobre nós e eu estivesse a viver um segredo só meu. O silêncio era pesado, mas familiar, e eu gostava de me sentir assim, invisível e atento ao mesmo tempo.
O Manel voltou, encolhendo os ombros:
— Já os emprestou. Vamos embora.
Partimos sem grande conversa. Mais tarde, o Benjamim surgiu esbaforido:
— Eh, vocês! Acompanhem-me ao posto médico. Preciso de lá ir tratar de uns assuntos.
Não perguntou se podíamos ir, assumiu. E fomos, com a cabeça cheia de pensamentos que não sabiam se eram sonhos ou memórias. No percurso de bicicleta, o vento no rosto parecia lavar as ideias confusas, mas não apagava a presença dela. Cada gesto, cada riso dela, ainda ecoava dentro de mim. A sua imagem aparecia entre os edifícios, nas sombras da rua, como se o dia inteiro tivesse sido moldado para a encontrarmos.
Mais tarde, cruzamo-nos com ela. Um instante simples, mas o coração disparou:
— Olá, António.
Fiquei ali, um segundo a mais do que devia, matutando no que dizer a seguir. Tentei equilibrar a coragem e a timidez:
— Então, o que tens feito?
— O normal. — Deu de ombros, sem grande entusiasmo.
— Estás bem? Pareces um bocado… não sei…
Ela desviou o olhar por um instante, procurando talvez um refúgio invisível:
— Estou. Só estou com a cabeça noutro sítio.
— Ah… percebo… — menti, tentando disfarçar a ansiedade que apertava o peito.
O silêncio caiu como uma cortina. Cada segundo parecia alongar-se, pesado de palavras não ditas. Então, sem aviso, deu um passo atrás e murmurou:
— Tenho de ir.
E partiu. Fiquei imóvel, sentindo o vazio que ela deixara atrás, uma ausência tão intensa que parecia ocupar todo o espaço ao redor. O seu recuo fazia-me querer chamá-la, mas a consciência de que poderia apenas quebrar a delicadeza daquele instante mantinha-me quieto.
Pouco depois, ela voltou, como uma sombra gentil regressando ao meu mundo. O coração acelerou e, sem pensar, arrisquei:
— Olá, outra vez…
Ela olhou para mim, surpresa, hesitante:
— Olá…
— Olha, sobre há bocado… — comecei, as palavras hesitantes a tentar encontrar forma — Não sei se disse alguma coisa que te chateou…
Ela abanou a cabeça rapidamente:
— Não, não disseste nada.
— Então porque é que te foste embora assim?
Hesitou, mordendo ligeiramente o lábio:
— António… às vezes é melhor não complicar as coisas.
Franzi o sobrolho, confuso e magoado:
— Mas eu não estou a complicar nada. Só queria falar contigo.
Ela suspirou, desviando o olhar, e disse com suavidade:
— Pois…, mas às vezes falar só atrapalha.
Virou-me as costas e afastou-se. Cada passo seu parecia levar consigo pedaços do meu mundo. O coração, antes firme, agora parecia um vaso prestes a rachar. O Manel chamou-a, e ela dirigiu-se a ele; minutos depois, os truques de cartas deles enchiam o espaço de risos, mas para mim era apenas o eco da minha solidão, observando um espectáculo no qual não tinha lugar.
Afastei-me, peguei na bicicleta e fui dar umas voltas, sentindo o vento como se pudesse lavar a dor e a confusão que ela deixara. Mais tarde, ao passar por mim, a Dila despediu-se, e eu respondi automaticamente, com a voz quase perdida.
Deitei-me na relva, sozinho, deixando o silêncio preencher o peito. O céu parecia enorme e silencioso, refletindo o turbilhão de sentimentos que não sabia decifrar. Entre a brisa e o calor do dia, percebi algo: o amor e a dor coexistem, às vezes imperceptíveis, mas sempre presentes. A Dila, com gestos tão pequenos, ensinava-me a sentir sem pressa, a amadurecer sem palavras.
Quando finalmente vim para casa, jantei e sentei-me à televisão, mas o pensamento não estava no jogo. Estava na Dila, nos seus gestos, nos silêncios, nas pequenas hesitações que contavam mais do que qualquer conversa.
Agora, escrevo estas linhas, coração inquieto e silencioso. Aprendi hoje que amar é também aceitar a distância, que sentir é atravessar momentos que não se explicam, que os sonhos se infiltram no dia-a-dia, e que cada pequeno encontro com ela deixa marcas invisíveis, mas profundas. Ainda ciumento, ainda inseguro, mas com uma certeza silenciosa: o coração cresce quando observa, quando espera, quando aprende a ouvir o que não é dito.
Assim termina este dia.
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