O Vento Leva o que não Digo

Terça-feira, 27 de Maio de 1975

A manhã chegou com uma luz mansa, daquelas que parecem querer acordar o mundo em surdina. O sol ainda hesitava entre as nuvens, e o ar cheirava a terra húmida e promessas que não se cumprem. Eu esperava o Manel à porta de casa, com a pasta debaixo do braço e o passo meio impaciente. Tínhamos combinado seguir juntos para o liceu, mas ele não veio. Esperei cinco, dez minutos — talvez mais — e o silêncio da rua começou a pesar-me no corpo, como se o tempo se tivesse esquecido de andar. Acabei por ir sozinho, com o coração a bater devagar, a pensar que talvez ele tivesse adormecido ou simplesmente não tivesse vontade.

No caminho, reparei nas janelas que se abriam ao acaso — lençóis brancos ao vento, vozes de mães, o ruído tímido das panelas. Tudo parecia distante, como se o mundo estivesse a mexer-se num ritmo que eu já não acompanhava. À porta do liceu, os colegas juntavam-se em pequenos grupos, uns a rir, outros com aquele olhar de quem já sabe que o dia vai trazer más notícias.

Fui direito ao quadro das notas. O coração começou a bater mais depressa, como se quisesse chegar lá antes de mim. Quando encontrei o meu nome, suspirei: três negativas. Não era desgraça, mas também não era glória. Fiquei a olhar para os números como se deles dependesse o meu futuro inteiro — talvez, de certa forma, dependesse.

Por curiosidade, procurei o Benjamim e o Manel. O primeiro, sete negativas. O segundo, apenas uma. E foi como se, de repente, o ar ficasse mais pesado. O Benjamim ia desabar — conhecia-o bem demais para não o saber.

Regressei a S. Pedro da Cova com o pensamento preso nisso. Ainda tentei encontrá-lo para lhe contar, mas a mãe disse que ele tinha saído. Fiquei parado um instante, sem saber se sentia alívio ou culpa. Há notícias que pesam mais quando ainda não foram ditas.

À tarde, o Manel apareceu. Falou pouco. Disse apenas:
— Vamos até ao monte?
Fomos. Levámos os cadernos de desenho, os lápis e aquele silêncio que se instala entre amigos quando há coisas que nenhum sabe bem como dizer. O ar livre sempre ajuda a pôr os pensamentos no lugar — ou, pelo menos, a fazê-los parecer menos urgentes.

Escolhemos um canto alto, onde o vento vinha do vale e o som das árvores lembrava um mar esquecido. O Manel começou a desenhar a mina, com aquela torre de betão cansada, restos de um tempo que não volta. Eu, sem pensar muito, comecei a desenhar a casa da Dila. Não toda — apenas um canto, uma janela, talvez o reflexo de um cortinado. Era a luz da tarde que me puxava para lá, ou talvez fosse ela própria, invisível mas presente, a espreitar-me através do papel.

O lápis corria e eu sentia-me leve, como se o mundo, por instantes, tivesse esquecido de me cobrar explicações. Mas a calma durou pouco. Quando já descíamos o monte, avistámos ao longe os pais da Dila. O coração deu um salto, desses que sobem até à garganta e não sabem se hão-de rir ou fugir. O Manel olhou-me e, sem precisar de palavras, cortámos caminho.

— Achas que nos viram? — perguntou ele, quando já estávamos longe.
— Viram. De certeza. — Fiz uma pausa. — Mas o pior é se repararam no que eu estava a desenhar.
Ele deu de ombros:
— Se repararam, boa sorte.

Rimo-nos, mas foi um riso nervoso. A inquietação já se tinha instalado dentro de mim, e não havia modo de a expulsar. E se imaginavam que eu andava a rondar a casa da filha? E se achassem que havia ali qualquer coisa? Quando há desconfiança no ar, até o silêncio é uma acusação.

Mais tarde, fui procurar o Benjamim. Encontrei-o sentado no muro, com o ar distante de quem pressente más notícias. Contei-lhe.
— Sete negativas?! — disse, incrédulo. — Não pode ser.
— Também gostava que não fosse. — Mostrei-lhe o papel.

Ele ficou a olhar, como quem espera que o papel se arrependa e apague os números sozinho. Depois suspirou e não disse mais nada. Fomos caminhar pelo monte — sem cadernos, sem risos. Cada um a carregar a sua própria derrota.

À noite, levei a bicicleta ao mecânico. A corrente fazia barulho, e eu precisava de a pôr em ordem — talvez fosse só isso, ou talvez fosse a tentativa de arranjar alguma coisa, quando o resto parecia desarrumado.

Voltei, vi um pouco de televisão, mas nada me prendia. O mundo lá fora continuava a girar e, cá dentro, tudo parecia suspenso num ponto qualquer entre a dúvida e o desejo. Escrevi no diário, como quem se agarra a uma tábua no meio do mar. Era o segundo dia de férias, e já sentia a liberdade como um peso.

Antes de adormecer, pensei na Dila — não tanto nela, mas na ideia dela, naquilo que deixava em mim mesmo quando não estava. O contorno do seu nome parecia acompanhar-me no escuro, como se fosse uma estrela muda a iluminar o que ainda não sei sentir.

E, talvez, amadurecer seja isso: aprender a ouvir o coração quando ele ainda não sabe falar.

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