Um Toque Pleno de Emoções

Segunda-feira, 26 de Maio de 1975

A luz da manhã entrou preguiçosa pelo quarto, espalhando-se como um gato que se espreguiça ao sol. Os lençóis ainda guardavam o calor da noite, e eu, entre o sono e o despertar, sentia uma espécie de paz doce — o prenúncio das férias, o rumor de um tempo que não exige nada.

Levantei-me sem pressa. A casa parecia respirar comigo. A minha mãe movia-se na cozinha, e o som dos talheres misturava-se com o chilrear das aves. Depois do pequeno almoço, saí com o meu colega para explorarmos os fósseis — um ritual antigo, como se procurássemos nas pedras o passado do mundo e, sem saber, o princípio de nós próprios.

O sol batia na terra e fazia cintilar os grãos de pó, e nós, ajoelhados, virávamos as pedras como quem abre páginas de um livro esquecido. Cada fenda, cada marca, era um vestígio de algo maior do que o nosso entendimento. Eu sentia-me leve, quase feliz, talvez porque, naquele instante, nada me faltava.

Quando voltamos, o chão do quarto ficou coberto de pequenas pedras, fragmentos do tempo. Examinamo-las à luz da janela, virando-as nas mãos, debatendo formas e segredos. Era uma arqueologia inocente, mas também uma forma de sonhar.

A voz da minha mãe quebrou o encantamento:
— Tono, o almoço está na mesa!

Olhei para as mãos sujas de pó e suspirei. As pedras ficaram ali, como se esperassem o regresso de um deus distraído.

Depois do almoço, deixei-me ficar a ver televisão, sem grande interesse. O calor da tarde empurrava o tempo, mole e lento. Saí para o pátio, pronto para um jogo de bola. Mas o destino, com o seu jeito de ironia mansa, tinha outros planos.

Alguém chamou o meu nome. Voltei-me — e o mundo inteiro ficou mudo.

Era a Dila.

Não sei explicar. Não era apenas vê-la. Era senti-la. Uma descarga súbita, uma claridade no peito, uma vertigem mansa. Caminhei até ela, com o coração descompassado, e quando os nossos olhares se cruzaram, vi aquele sorriso tímido que me desarma sempre.

— Olá, Dila — disse eu, tentando esconder o nervosismo. — Como estás?
— Olá — respondeu, num tom que parecia um segredo. — Estou bem… e tu?
— Agora melhor 
— confessei, num tom meio brincalhão, meio sério

Ela corou. Eu fingi que não reparei, mas era impossível não reparar. O sol parecia inclinar-se só para ver o que acontecia entre nós.

Ela baixou os olhos por um instante, brincando com a ponta da manga do vestido. Havia um misto de timidez e alegria no seu semblante.

— Fiquei a pensar no que aconteceu ontem… Está mesmo tudo bem? — perguntei, inclinando ligeiramente a cabeça para ver melhor a sua expressão.

Dila hesitou, mas depois ergueu os olhos para mim, brilhantes e serenos.

— Sim, nada aconteceu. Eu… gostei de ontem — disse, baixando um pouco a voz na última frase.

Gostei de ontem.

Essas três palavras ficaram-me a ecoar no peito como uma canção de que não se sabe a letra, mas se reconhece o tom.

O meu coração deu um salto. Havia algo na forma como ela falava, na suavidade do seu tom, que me deixava inquieto e, ao mesmo tempo, profundamente feliz.

Acompanhei-a até um local onde me pediu que esperasse. O tempo ali parado não me pesou, pois, a expectativa de a voltar a ver mantinha-me desperto e atento. Quando finalmente regressou, senti de novo aquele efeito magnético que ela exercia sobre mim. Caminhou até mim com um ar hesitante, mas decidido.

— Preciso de te perguntar uma coisa — disse eu, tentando controlar a ansiedade.

Ela inclinou ligeiramente a cabeça, intrigada.

— O quê?

Engoli em seco antes de falar.

— Para ti… eu sou importante?

O silêncio que se seguiu foi uma eternidade pequena. O vento parou, até os pássaros pareceram calar-se. E então ela respondeu, com voz trémula, quase um sopro:

— Sim… és.

Senti o peito aquecer com aquelas palavras. O tempo pareceu parar por um instante.

— Isso deixa-me feliz. Muito feliz — murmurei, sorrindo.

Ela retribuiu o sorriso, e continuamos a caminhar lado a lado. Falamos sobre trivialidades, rimos de pequenas coisas sem importância, mas cada palavra trocada parecia carregar um significado oculto. Quando chegamos ao local onde nos despedíamos sempre, ela parou e olhou para mim.

— Obrigada por hoje — disse, com um tom sincero.

— Eu é que agradeço — respondi.

Antes de partir, estendi a mão — um gesto nascido mais do instinto do que da razão, como quem procura no toque uma confirmação de que o momento é real. Ela olhou-me, e nesse olhar havia um breve tremor, uma hesitação leve, como o bater das asas de um pássaro prestes a levantar vôo. Depois, devagar, pousou a sua mão sobre a minha.

As suas mãos eram frias — frias como que a suplicar pelo calor que brotava do meu coração apaixonado. E eu senti, naquele contacto silencioso, a urgência de lhe oferecer esse calor, de a envolver, não com palavras, mas com a febre doce de quem descobre o amor pela primeira vez. Era como se a minha alma se inclinasse sobre a dela, tentando acender-lhe a pele, devolver-lhe o pulso escondido sob o frio.

Aquela frieza não me afastava — atraía-me ainda mais, porque nela havia uma inocência que pedia abrigo, um silêncio que pedia resposta. Apertei-lhe ligeiramente os dedos, e juro que por um instante o frio pareceu ceder, rendido ao fogo que me subia das veias.

O toque foi breve, mas deixou em mim uma marca profunda — um traço invisível que se estendeu até ao peito, onde o coração batia, desordenado, entre o medo e a alegria. Quando ela me soltou, o ar pareceu perder densidade, e eu fiquei a olhar as minhas mãos como quem acabou de tocar algo sagrado e frágil.

Mais tarde, fui com o Manuel procurar fósseis outra vez, mas já não era o mesmo. As pedras pareciam todas vazias, como se o tempo tivesse secado dentro delas.

À noite, deitado na cama, senti o corpo cansado e a alma desperta. O quarto estava mergulhado numa penumbra tranquila. Pensei em Dila, no seu sorriso, no frio daquelas mãos que ficou preso em mim, misturado com o meu calor — e o fim do dia foi uma combustão lenta, feita dessa memória contraditória: o gelo e o fogo, a inocência e o desejo, o princípio de algo que eu ainda não sabia chamar amor, mas que já me ardia por dentro como se o fosse desde sempre. 

E adormeci, não com a certeza de a ter compreendido — mas com a certeza de a querer compreender.

Talvez seja isso o início do amor: um silêncio que cresce devagar, dentro de nós, e nunca mais nos devolve o sossego inteiro.


« Página anterior / Índice / Página seguinte »