O Silêncio entre dois Passos
Domingo, 25 de Maio de 1975
O despertar foi estranho, como se o corpo adivinhasse antes da mente que algo estava prestes a mudar. Havia uma vibração leve no ar, como o rumor distante de uma promessa. A luz da manhã entrava oblíqua pela janela, arranhando o chão de madeira, e o pó dançava nela com uma serenidade que me perturbava. Acordei com a sensação de que o dia me observava, curioso, à espera do meu primeiro gesto.
O encontro com a Dila estava marcado. E bastava esse simples facto para que tudo ganhasse outro peso — o ar, o espelho, até o acto banal de escolher uma camisa. Nunca pensei que o botão de um colarinho pudesse doer tanto. Vestir-me tornou-se um ritual de iniciação, uma tentativa de preparar o coração para algo que ele nunca aprendera a suportar: a beleza.
Cheguei ao local combinado cedo demais. A espera é uma forma de oração — silenciosa, teimosa e sem garantias. Os minutos começaram a arrastar-se, viscosos, e cada sombra que se movia ao longe parecia uma ilusão criada pelo desejo. O mundo inteiro parecia saber que ela estava atrasada, e o vento soprava com uma ironia mansa.
Até que a vi.
E tudo se calou.
A espera, a dúvida, o cansaço — desapareceram como fumo. A Dila vinha com aquela calma de quem não deve nada ao tempo. Caminhava como quem não pisa o chão, e o sol, cúmplice, fazia-lhe brilhar o cabelo de um modo quase cruel. Quando se aproximou, o meu corpo esqueceu-se de ser corpo e tornou-se olhar.
— Cheguei a pensar que não vinhas… — murmurei, receoso de acordar o encanto.
Ela sorriu, tímida, com as mãos a brincar com a bainha do vestido.
— Tive de ajudar a minha mãe antes de sair… Mas não queria faltar.
Havia uma doçura tão simples nas palavras dela que o meu coração, ingénuo, acreditou que bastaria isso para a eternidade durar. Falámos um pouco, ou fingimos falar, porque o que existia entre as palavras era o que realmente importava — aquele silêncio partilhado onde tudo o que sentíamos cabia sem esforço.
Mas a vida tem o talento cruel de interromper os instantes perfeitos. A irmã dela chegou primeiro, e pouco depois, o Manel. A conversa continuou, mas a leveza perdeu-se. Ainda assim, era feliz. Sentia-o no corpo, como se a alegria tivesse uma temperatura.
E então veio a mãe.
O olhar dela não precisou de palavras. Trazia a autoridade de quem conhece os limites e os impõe. A Dila empalideceu, levantou-se depressa, e murmurou apenas:
— Tenho de ir…
Fiquei sentado, como um boneco de corda que deixou de funcionar. Vi-a afastar-se, e dentro de mim algo se fechou. Uma janela, talvez.
Caminhei depois, sem rumo, apenas para não ficar parado no mesmo ar que ela deixara. Foi então que a vi mais à frente, com a irmã. O meu instinto empurrou-me para a curva da estrada — uma curva discreta, cúmplice. Quando passou, olhou-me. E naquele olhar coube tudo o que as palavras recusam: tristeza, medo, talvez culpa. Quis perguntar-lhe o que se passava, mas bastou um gesto dela — um leve movimento dos olhos — para me ordenar silêncio.
Obedeci.
Segui-a de longe, como quem segue uma lembrança que ainda não aconteceu. Vi-a entrar num carro. E nesse instante, o mundo ficou imóvel, suspenso entre o que fora e o que já não voltaria a ser.
Ao cair da tarde, regressei ao mesmo lugar onde a esperara. Os bancos vazios pareciam zombar-me com a sua quietude. Esperei até a noite começar a tomar conta do céu. Mas ela não veio. Talvez nunca mais viesse da mesma forma.
Fui ao cinema, sem vontade. O filme passava-me diante dos olhos como um sonho alheio. Tudo o que via era o rosto dela, os dedos inquietos, a curva dos lábios ao dizer “não queria faltar”.
Em casa, abri o diário. A fotografia dela estava lá, a mesma que tantas vezes me fizera sorrir. Peguei nela com o cuidado com que se pega numa ferida. Beijei-a, e algo doeu.
— Desculpa… — sussurrei.
Não sabia bem porquê. Talvez por tê-la deixado partir sem lutar. Talvez por ter sonhado demais. Ou talvez porque amar é sempre, de algum modo, pedir perdão por existir.
Fechei o diário devagar. A noite avançava em silêncio, e senti-me crescer dentro desse silêncio — como quem compreende, pela primeira vez, que o amor também é uma forma de solidão.
« Página anterior / Índice / Página seguinte »