A Luz de um Dia Que Fica

Sábado, 24 de Maio de 1975

O dia nasceu radioso, com um sol quente que dourava as ruas e fazia brilhar os vidros das janelas. O calor anunciava o Verão que se aproximava, e eu senti, por um instante, que o mundo inteiro respirava devagar, à espera de algo que eu ainda não sabia nomear. Abri a janela e deixei o ar fresco da manhã entrar, trazendo consigo o cheiro das flores que começavam a desabrochar nos quintais e da terra molhada da noite anterior. Havia uma leveza que não sei explicar, como se a cidade estivesse suspensa entre o sonho e a realidade, e eu pudesse tocar a promessa de dias melhores.

Encontrei-me com a Dila. Ela vinha ao longe, caminhando com aquela graciosidade natural que lhe era tão própria. O vestido simples ondulava ao ritmo dos seus passos, e o sorriso que me dirigiu foi como uma faísca inesperada: iluminou o meu peito, fez saltar no meu peito uma alegria silenciosa. Sempre presente, sempre a iluminar-lhe o rosto. Era impossível não a admirar, e mesmo quando tentava esconder o que sentia, o coração traía-me com pequenos tremores.

— Olá, António! — disse, aproximando-se.
— Olá, Dila. Hoje estás ainda mais bonita.
— Ai sim? — sorriu, corando ligeiramente. — Ou será que és tu que hoje estás mais simpático?

Conversamos como quem coleciona minutos preciosos, sem nos apercebermos do tempo que escapava. Falamos de tudo e de nada, rindo e lembrando pequenas histórias da semana, como se cada palavra tivesse o peso leve da eternidade. Quando nos despedimos, senti um vazio miúdo que não tinha nome — apenas a certeza de que, em algum lugar do meu peito, algo começava a crescer silenciosamente.

Era suposto ir para as aulas, mas o Benjamim, que estivera por perto, sugeriu outra coisa.
— Com este calor, vamos mesmo meter-nos enfiados na escola? — disse, atirando uma pedra para a estrada.
— Tens razão… — hesitei. A ideia de passar a tarde entre quatro paredes parecia subitamente absurda, quase absurda demais para ser suportada.

Seguimos para o jardim do Liceu, onde nos estendemos na relva, sentindo a sombra fresca das árvores abraçar-nos. O tempo passou devagar, quase inaudível, entre conversas soltas, risadas e o silêncio confortável que só os amigos conhecem. E, mesmo ali, distraído, a Dila surgia em pensamentos meus — no sussurro do vento, no brilho das folhas, na forma como a luz caía sobre a relva.

— Sabes o que era mesmo bom agora? — disse o Benjamim.
— Diz.
— Faltarmos às aulas e irmos para o monte.

Olhei-o por um instante. Uma decisão sem retorno. Mas o desejo de liberdade falava mais alto do que qualquer regra.
— Vamos! — disse, levantando-me.

No monte, o mundo parecia respirar diferente. O vento soprava leve, carregando o cheiro de erva seca e de terra quente. A liberdade tinha sabor de sol e silêncio, e cada segundo ali parecia prolongar-se infinitamente. Pensei na Dila, como se ela estivesse ali, invisível, a rir com o vento, e sorri sozinho, sentindo o coração a crescer, a amadurecer, sem pressa de entender.

Já em casa, a televisão ligada foi apenas companhia silenciosa. O Benjamim ficou algum tempo, entre comentários sobre o filme e recordações antigas, e quando se foi embora, restou o silêncio — o mesmo silêncio que me levou ao cinema, a qualquer distração que preenchesse a noite vazia. Cada gesto, cada escolha, parecia pequeno, mas eram meus, e isso bastava.

Agora, sentado no meu quarto, escrevo estas linhas antes de adormecer. Não foi um dia de grandes acontecimentos, mas foi um dia meu. E, no entanto, quando penso na Dila, percebo que até os gestos mais simples guardam a intensidade de uma emoção que ainda não sei nomear. Talvez seja isso que significa crescer: perceber a beleza e a dor de sentir, sem alarde, sem palavras, deixando o coração amadurecer em silêncio.

O sono chega devagar, como quem não tem pressa, e eu deixo-me levar, com a memória do sol, do vento e do sorriso dela a acompanhar-me, quase como se fosse um sonho do qual não quero acordar.


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