O Peso de um Nome
Sexta-feira, 23 de Maio de 1975
A manhã chegou com a lentidão de quem não quer ser lembrada. O sol, tímido, insinuava-se pelas frestas da persiana e riscava o chão com linhas que pareciam medir o tempo. Levantei-me sem vontade, arrastando os pés como se cada passo me lembrasse o peso da véspera — um cansaço sem nome, feito de silêncio e de pensamentos que não se deixam arrumar.
Na escola, tudo correu num modo quase invisível. As horas foram sombras que se estendiam sobre o quadro, o giz riscando fórmulas e datas que não me pertenciam. Às seis e dez, a campainha anunciou a libertação. Saí devagar, com o sol a cair de lado sobre os muros e o ar a cheirar a poeira quente. Havia uma paz estranha na tarde — dessas que fazem o coração abrandar, como se pressentisse um rumor de mudança.
Quando cheguei a casa, o mundo voltou ao costumeiro som das panelas e do rádio na cozinha. A mãe mexia o tacho, distraída, e o cheiro a refogado misturava-se com o murmúrio das notícias. Lanchei sem apetite, um copo de leite meio esquecido sobre a mesa, quando a Celeste apareceu à porta, com aquele ar de quem traz novidade.
— Sabes quem esteve aqui esta tarde? — perguntou, com o riso preso no canto da boca.
Olhei-a, sem suspeita.
— Quem?
— A Dila.
O nome caiu-me no peito como uma pedra no lago. A superfície do meu dia estremeceu.
— A Dila? Aqui?!
— Aqui mesmo. Ficou um bocadinho à conversa comigo. Pegou na Sónia ao colo. Riu-se. Ela é bonita.
A Sónia, alheia ao vendaval que se erguia dentro de mim, embalava a boneca com a serenidade dos inocentes. Eu tentei rir, tentei ser natural, mas o coração denunciava-me. Que raio vinha fazer a Dila à porta da minha casa? Teria sido acaso? Ou um daqueles acasos que o destino inventa para nos testar?
Fiquei a remoer aquilo o resto do dia. O nome dela parecia ecoar em tudo — no barulho da torneira, no chiar da cadeira, até no tic-tac do relógio. Cada vez que o repetia em pensamento, sentia o peso silencioso que carregava comigo.
À noite, lá fui à festa em S. Pedro da Cova. Falava-se de justiça, de futuro, de esperança. Gente a querer mudar o mundo com palavras e vontades. Fiquei de piquete até à meia-noite, entre fumo de cigarros e planos, com o corpo presente mas a cabeça perdida noutra geografia — a rua onde a Dila tinha estado, o som imaginado da sua voz, o sorriso que a Celeste descrevera.
Quando regressei, o cansaço misturava-se com uma espécie de inquietação mansa. Sentei-me no sofá e deixei a televisão falar sozinha. No ecrã, o país fervia; em mim, tudo ardia em silêncio.
Fechei o caderno depois de escrever estas linhas. A noite avançava devagar, como se quisesse ouvir-me pensar. Lá fora, um cão ladrava ao longe. Dentro de casa, só o respirar do tempo.
E eu, com os olhos presos no tecto, imaginei-a de novo — a Dila à porta, o sol a desenhar-lhe o rosto, o instante em que tudo podia ter começado de outra maneira.
Adormeci com a sensação de que algo, muito lá no fundo, tinha mudado. Não era ainda amor — talvez fosse apenas o coração a aprender o seu idioma.
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