O Aperto de Mão

Quinta-feira, 22 de Maio de 1975

O amanhecer chegou sem urgência, como quem conhece bem o caminho e não precisa de correr. A casa acordava num murmúrio conhecido, o café a ferver na cafeteira, o arrastar das cadeiras, o tilintar das colheres nas chávenas. Era um dia igual a tantos outros, e, no entanto, havia qualquer coisa diferente no ar, talvez fosse eu, que já não acordava da mesma maneira.

O pequeno almoço passou-se entre frases curtas e o som do relógio da cozinha a marcar o compasso do tempo. Saí, livros debaixo do braço, com o coração dividido entre a rotina e uma esperança pequena, mas viva, a de a ver.

No caminho, o sol ainda hesitava entre as nuvens. Havia um cheiro a pão quente e a manhã nova. No liceu, o pátio fervilhava de vozes. 

— Eh, ó Guilherme! Faz-me um favor… — pedi, aproximando-me do grupo.
— Diz lá.
— Pede dispensa por mim ao professor de Educação Física. Diz que estou indisposto.

Guilherme olhou-me de lado, desconfiado, mas encolheu os ombros.

— Está bem. Mas ficas a dever-me uma.
— Combinado.

O relógio não mentia, era a hora.
Mas, ao chegar à paragem, vi o trólei afastar-se pela Rua do Bonfim. Aquele vulto de metal levava consigo a esperança de um encontro e deixava-me só, com o coração a bater no vazio. Fiquei ali parado, olhando o rasto de pó e luz.

Foi então que a vi.
Dila vinha ao longe, cercada de vozes e risos. Caminhava leve, como se o mundo inteiro se inclinasse para lhe abrir caminho. E, ao ver-me, disse algo às amigas e veio ter comigo.

— Olá, António! — A sua voz tinha o brilho do sol depois da chuva.
— Olá, Dila. — Respondi, tentando parecer tranquilo. 
Sorri-lhe, feliz por a ver. Começamos a caminhar juntos para a paragem.

— Obrigado por me teres devolvido o papel. - disse-lhe.

— Não tens de quê. Nem sei como te esqueceste dele! — brincou ela.

Começamos a andar lado a lado. A rua, o vento, o som dos passos, tudo parecia compor uma música discreta. Falamos do papel que ela me devolvera, e rimo-nos do esquecimento, mas havia mais coisas não ditas, a pairar no ar entre nós.

De repente, mãos nos olhos, o susto, o riso, o Benjamim.

— Sempre a melgares a Dila, hã? — disse ele, com aquele ar de quem goza por amizade.

Ela corou e aquele rubor ficou-me gravado como uma fotografia sem moldura.

Quando ele se afastou, o mundo pareceu encolher até caber no pequeno espaço entre nós.

— Ainda me faltam duas ou três perguntas para completar o estudo vasto que estou a fazer sobre ti — disse-lhe, fingindo leveza.

Ela sorriu, arqueando uma sobrancelha.

— Ah, é? E posso saber quais são?
— Ainda estou a escolher. — E pisquei-lhe o olho, como quem disfarça o medo de dizer “gosto de ti”.

O trólei aproximava-se. O tempo, esse ladrão calado, começava a roubar-me segundos.

Num impulso, estendi-lhe a mão.

Durante um segundo, um segundo que se estendeu como um fio de eternidade, o tempo parou.

O gesto nasceu antes de o pensamento o autorizar, foi o corpo a falar pelo coração, foi a alma a soltar-se de mim. Senti o sangue a subir-me à face, um calor que vinha de dentro, misto de receio e coragem, como quem dá um passo no escuro e espera não cair.

Ela olhou a minha mão, primeiro com surpresa, depois com uma doçura contida, quase curiosa. A hesitação dela, breve, mas real, foi uma pequena morte e um renascimento.

Por um instante temi ter ultrapassado a fronteira invisível entre a amizade e o sonho. Mas então, sem dizer nada, estendeu-me também a sua.

Foi como se o mundo inteiro respirasse comigo. O toque foi leve, quase tímido, e no entanto fez-se sentir até aos ossos.
Não era apenas pele a tocar pele, era tudo o que eu nunca tinha dito a ganhar corpo.

Senti uma corrente ténue, viva, atravessar-me os dedos, subir-me pelo braço e alojar-se algures no peito, onde o coração já batia descompassado.

Tive medo de apertar demais, de quebrar o encanto, e por isso apenas deixei que as nossas mãos se encontrassem, se reconhecessem, como se já se conhecessem há muito tempo e apenas estivessem a confirmar um pacto antigo.

Nesse instante percebi o absurdo e a grandeza do sentir, como algo tão pequeno pode mudar o rumo de um dia, talvez de uma vida. A rua desapareceu. O ruído dos carros dissolveu-se. Só restava o som do próprio coração, compassado e inexperiente, aprendendo a distinguir o que é ternura do que é apenas toque.

Quando ela retirou a mão, ficou-me na palma uma ausência quente, um vestígio quase físico, como o calor que a luz deixa numa pedra ao fim da tarde. E foi aí que percebi, o amor, quando começa, não grita. Sussurra. E às vezes cabe inteiro no breve encontro de duas mãos.

— Até amanhã, Dila. - Balbuciei meio atordoado por este momento de intimidade singela.
— Até amanhã, António.- Respondeu-me com um sorriso e ao mesmo tempo uma sensação de tristeza nos olhos, talvez pelo momento efémero cuja existência foi breve e fugaz se estampou no seu semblante.

Fiquei a vê-la entrar, e o trólei afastou-se, levando consigo o bater do meu coração. A rua voltou a ser apenas rua, o ar apenas ar. Mas dentro de mim, algo se moveu como se uma semente tivesse sido plantada num terreno que nem eu sabia fértil.

O resto do dia passou-se como um eco distante. As aulas, os cadernos, as vozes, tudo soava a fundo de palco. E no entanto, por trás de tudo, o seu riso permanecia.

À noite, deitado, tentei lembrar-me de cada detalhe, o brilho nos olhos, o tom da voz, o leve tremor quando os dedos se tocaram. E percebi, sem saber explicar, que o coração começava a aprender uma nova linguagem, feita de silêncios, esperas e pequenas coragens.

Talvez seja assim que começa a crescer, quando o que sentimos já não cabe nas palavras, mas também não cabe em nós.


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