Um dia para esquecer
Quarta-feira, 21 de Maio de 1975
Quando despertei, ainda com o corpo meio preso ao sonho, senti que o dia já tinha começado sem mim. Havia uma vibração no ar, uma espécie de aviso, ou talvez apenas o murmúrio do destino a afiar-se em segredo. Levantei-me devagar, como quem teme quebrar o feitiço de um pressentimento.
O sol entrava pela janela em fios tímidos, sem pressa de ser pleno. A rua ainda bocejava. Vesti-me sem pensar, deixei o pão com manteiga arrefecer sobre a mesa e saí. O ar da manhã tinha um cheiro metálico, quase eléctrico, e o meu coração batia mais depressa do que devia, talvez pela promessa de ver a Dila à tarde.
A Dila. Sempre ela, como uma música que se repete baixinho dentro de mim, mesmo quando o mundo fala de outras coisas.
Toquei à campainha da casa do Benjamim. Foi a irmã dele quem veio abrir, com aquele ar entre o gozo e o segredo.
— António, a tua irmã Zulmira quer fugir de casa — disse, como quem anuncia a chuva.
Ri, ou tentei rir.
— Está bem, está... — murmurei, meio sem graça, como quem recusa acreditar para não ter de pensar.
Mas a frase ficou a ecoar dentro de mim, plantada algures entre a dúvida e o medo. Enquanto caminhava para o liceu, ao lado do Benjamim, tentei afastá-la com banalidades. Falamos de futebol, de professores, do filme que estava em cartaz no cinema e, claro, da Dila. Ele achava que eu não tinha hipótese. Eu também achava, mas gostava de fingir que o amor podia ser uma questão de tempo e não de sorte.
As aulas arrastaram-se num tédio viscoso. A inquietação, porém, não passou. Na terceira, desisti da rotina. Disse ao Benjamim:
— Vamos ao cinema. Hoje não aguento estar fechado aqui.
E fomos. O filme falava de amores impossíveis e cidades distantes. Por uma hora e meia, vivi uma vida que não era a minha. Senti-me leve, quase feliz. Mas ao sair para a rua, o ar pareceu-me mais denso, como se o mundo tivesse envelhecido enquanto eu estive sentado na penumbra.
Regressava a casa, o sol a descer devagar sobre os telhados, o cheiro do entardecer a misturar-se com o fumo das chaminés. Ouvi uns miúdos gritarem do outro lado da rua:
— A irmã do António fugiu de casa!
O sangue gelou-me nas veias. Não era boato, afinal. Era real, esse monstro que não avisa.
Corri. O caminho que de manhã me parecera tranquilo agora era um campo minado de pensamentos. A porta de casa estava entreaberta, e dentro dela o silêncio pesava. A minha mãe olhou-me, um olhar que misturava medo, raiva e cansaço.
— A tua irmã não voltou desde manhã — disse apenas.
A casa parecia outra. O relógio fazia mais barulho, o chão rangia de forma diferente. Fiquei imóvel, sem saber o que fazer com as mãos. A Dila surgiu-me na cabeça, inesperadamente. Pensei nela, nos seus olhos que pareciam compreender o que eu nunca dizia. Talvez fosse isso que me prendia, ela lia-me sem que eu tivesse de falar.
As horas arrastaram-se. Já depois das sete, a porta abriu-se e lá estava a Zulmira. Os olhos baixos, o rosto molhado de pó e sombra. Entrou devagar, como quem pede desculpa ao chão.
A mãe não gritou. Não houve lágrimas nem castigos. Apenas um olhar demorado, um daqueles silêncios que dizem tudo. O ar dentro da casa ficou suspenso, como se o próprio tempo hesitasse entre continuar ou parar ali.
Eu fiquei quieto, a olhar para as duas, sem saber se devia aproximar-me. Senti uma coisa nova, uma espécie de compaixão, mas também de medo. Pela primeira vez, percebi que cada um carrega o seu pequeno desespero, o seu impulso de fugir, e que talvez crescer seja apenas aprender a ficar.
À noite, deitado, pensei na Dila outra vez. Imaginei-a a rir, a mexer o cabelo, a olhar-me sem pressa. O coração bateu devagar, cansado, mas vivo. A casa estava em silêncio, a vila dormia, e eu, entre o que vivi e o que sonhei, começava a entender que a beleza e a dor andam sempre de mãos dadas.
Fechei os olhos. O dia, esse, já ia longe. Mas dentro de mim ainda amanhecia.
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