A Dila Revela as suas Emoções

Terça-feira, 20 de Maio de 1975

O sol nasceu com preguiça, esbatido por uma névoa ténue que parecia saída de um sonho que ainda não queria acabar. A luz entrava tímida pelas cortinas do meu quarto, pousava nos móveis como quem pede licença, e eu, meio desperto, meio suspenso, deixava-me ficar nesse intervalo onde o real ainda não se impõe e o coração fala mais alto.

A casa dormia — só o tique-taque do relógio lembrava o tempo de que tanto tentava fugir. E dentro de mim, algo tremia. Não era medo, nem era alegria. Era um murmúrio novo, uma espécie de febre serena, como se o ar estivesse cheio de promessas por cumprir.

Hoje, percebo que foi o dia em que o mundo ganhou outro som.

A Dila respondeu-me.

Foram apenas palavras, gestos, um papel — mas tudo nela era mais do que isso. Tinha-lhe entregue, dias antes, aquele pequeno desafio, um jogo inventado para esconder o que eu sentia. Escrevi várias possibilidades, cada uma representando um grau de amor. Um truque de rapaz que ainda acredita que os sentimentos se podem medir, catalogar, arrumar em gavetas com nomes.

E esperei.

Hoje, quando a vi, o coração parecia um bicho engaiolado. O sol estava mais alto, e o ar cheirava a pó e flores esmagadas. Olhei-a — o cabelo preso de qualquer maneira, o sorriso que misturava doçura e ironia — e perguntei:

— Ainda tens o papel que te dei?

Ela olhou-me, com aquele ar de quem sabe mais do que diz, e respondeu:

— Tenho…

Depois ficou a brincar com o papel, rodando-o entre os dedos finos, deixando o silêncio crescer entre nós.

— E então? — arrisquei. — O que decidiste?

Ela riu-se — uma risada curta, quase secreta.
— Dou-to quando o troleicarro chegar.

A frase ficou a ecoar-me na cabeça. Fiquei preso entre o desejo e o desconcerto. O tempo, que até aí me parecia um rio manso, começou a arrastar-se como se carregasse pedras.

Quando o troleicarro se aproximou, o seu rumor metálico misturou-se com o bater do meu coração. A Dila virou-se, olhou-me nos olhos e, num gesto lento, estendeu-me o papel.

— Está aqui a tua resposta — disse, e a sua voz parecia vir de um lugar onde as certezas não moram.

Peguei no papel. Tremia. Abri-o. E o que vi… não cabia em nenhuma das minhas hipóteses.

O papel estava rasgado, amarrotado, queimado num canto — e ainda cheirava a fumo.

Cada marca, cada dobra, cada ferida daquele papel era uma resposta. Ela tinha vivido cada uma das possibilidades que eu lhe propusera. E destruído-as todas, como quem recusa escolher entre caminhos demasiado pequenos.

Olhei-a, mudo.
— Dila… o que é que isto significa?

Ela inclinou ligeiramente a cabeça e respondeu:
— Significa que o amor não é para medir, é para viver.

Depois, antes que eu dissesse o que quer que fosse, o troleicarro abriu as portas com um chiado. Ela subiu, voltou-se para mim e disse apenas:
— Até amanhã.

E foi-se, como o vento quando muda de direção.

Fiquei parado, o papel a queimar-me a palma da mão. O sol já se punha, e a luz tinha agora um tom de cobre gasto, como se o dia se tivesse cansado de brilhar.

O resto das horas dissolveu-se. As aulas, os colegas, os sons da cidade — tudo se tornou longínquo. O mundo inteiro parecia girar à volta de um pedaço de papel queimado e de um sorriso que eu já não sabia se tinha sido promessa ou despedida.

À noite, escrevi estas linhas. O papel está aqui, no bolso, como um segredo vivo. Rasgado, dobrado, queimado… e cheio de significado.

A cidade adormece, mas dentro de mim há uma música que não pára. Uma música sem letra, feita de espera, de dúvida e de um calor estranho que não sei nomear. Talvez seja o amor. Ou talvez apenas o início dele — esse ponto onde tudo dói e tudo é possível.

Fecho os olhos. Lá fora, o vento bate nas janelas. E, por um instante, penso que ouço o troleicarro ao longe, como se a Dila estivesse prestes a voltar, com outro papel, outra resposta, outro fogo.

Mas é só o sonho, que vem buscar-me outra vez.
E nele, ainda sinto o cheiro a fumo.