Amanhã Talvez
Segunda-feira, 19 de Maio de 1975
O despertador soou como um tiro no escuro, rasgando a quietude preguiçosa da madrugada. Acordei sem vontade, com aquela sensação de que o mundo me esperava antes de eu estar pronto para ele. O frio do chão encostou-se aos meus pés, e o espelho, cúmplice e distante, devolveu-me um rosto meio adormecido, meio inquieto — talvez já o rosto de quem começa a pensar demais.
Na escola, o dia abriu-se com um exercício que parecia escrito de propósito para me testar. As perguntas olhavam para mim como inimigos silenciosos. Senti um nó no estômago, desses que se formam quando a mente se recusa a obedecer ao corpo. Fiz o que pude — o lápis arrastava-se pela folha como se também ele tivesse sono. Já sei: a nota não vai ser grande coisa. Há dias assim, em que o esforço parece não ter eco.
O resto das aulas passou numa névoa leve. Palavras, datas, fórmulas — tudo se misturava, tudo me parecia distante, como se a minha cabeça andasse noutro lugar. Talvez junto à janela onde Dila costuma sentar-se, o cabelo apanhado, os olhos pousados num ponto que ninguém mais vê. Às vezes penso que ela percebe coisas que os outros ignoram, como se o mundo lhe falasse numa língua secreta.
Às seis e dez saí com o Manel. Fomos falando das banalidades que preenchem o caminho entre a escola e casa — as chatices das aulas, as piadas do Tiago, o jogo de sábado. E, mesmo assim, por baixo da conversa, havia uma paz discreta, um conforto de quem sabe que a rotina é uma espécie de abrigo.
Quando cheguei, larguei a pasta como quem larga um peso e fui lanchar. A minha mãe perguntava-me qualquer coisa, mas eu respondia pouco. Estava cansado, e talvez um pouco vazio. Depois, fui jogar à bola com o meu pai. Ele riu-se quando eu falhei um passe fácil e chamou-me “sonhador”. Tinha razão. Enquanto a bola rolava, eu pensava nela — na Dila — e o riso do meu pai soava longe, como uma canção antiga.
Mais tarde, a casa começou a encher-se de silêncios. Senti necessidade de sair. O corpo pedia ar, e o pensamento pedia um lugar onde pudesse andar à solta. Caminhei sem rumo até chegar àquele recanto onde, há umas semanas, a mãe da Dila nos surpreendeu a falar. O mesmo cheiro de terra molhada, o mesmo rumor de folhas, o mesmo eco do que não foi dito. Sentei-me. E ali fiquei, a olhar o céu a mudar de cor.
O entardecer tinha um tom de saudade, como se o dia estivesse também a pensar nela. Às vezes, parece-me que o tempo se dobra — que o que vivi e o que sonho se tocam por um instante. E nesse instante, Dila está perto: o som do seu riso, a forma como ajeita o cabelo, o olhar que me desarma.
Regressei a casa com um pressentimento estranho, uma espécie de esperança disfarçada de medo. Amanhã… amanhã talvez seja um dia diferente. Talvez aconteça qualquer coisa que mude tudo, mesmo que ninguém repare. Fechei os olhos com essa ideia presa ao peito — um pequeno lume a resistir na escuridão.
E assim terminou o dia: com o rumor distante de um coração a aprender o que é sentir.
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