Domingo no Fim do Mundo
Domingo, 18 de Maio de 1975
A manhã nasceu cansada, sem cor, como se o sol tivesse desistido de iluminar este pedaço de mundo. A claridade atravessava as cortinas com a timidez de quem não quer incomodar. Fiquei na cama tempo demais, entre o peso do corpo e a lentidão dos pensamentos. Havia uma dor antiga, sem nome, que se instalara nos ossos — e uma quietude quase solene, como se o silêncio tivesse ganho autoridade sobre tudo.
Todos os meus amigos me esqueceram. Este pensamento surgiu-me assim, inteiro, sem piedade, como se tivesse estado à espera deste instante para se revelar. Talvez fosse exagero — eu sei que o coração tem tendência a dramatizar quando se sente só. Mas havia ali um fundo de verdade. O vazio não mente.
Saí à rua com um passo hesitante. As pedras da calçada pareciam mais gastas, o vento mais frio, e os rostos — os poucos rostos — tinham aquele ar distante de quem pensa noutra coisa. Talvez o mundo continuasse igual, mas o meu olhar é que tinha mudado. Há dias assim, em que tudo o que é simples se veste de melancolia.
Pensei na Dila. Sempre ela.
A lembrança dela apareceu sem que eu a chamasse — o modo como inclinava a cabeça quando ria, o jeito distraído de mexer no cabelo, o brilho nos olhos quando falava de coisas que só ela entendia. Dila tem essa presença invisível que se cola às horas, mesmo quando não está.
Resolvi ir até à casa dela. Caminhei devagar, como quem arrasta uma esperança. As janelas estavam fechadas, o portão trancado, e a rua parecia guardar segredo. Fiquei um momento parado, a olhar a casa. Não sei o que esperava — talvez um aceno, talvez apenas a certeza de que ela ainda existia. Mas o silêncio respondeu por ela.
Voltei para casa com o coração pendurado num fio.
Os dias de juventude às vezes pesam mais do que parecem. É o tempo a ensinar-nos, com uma ternura cruel, que sentir é sempre um risco.
Jantei sem vontade. A sopa arrefecia no prato enquanto eu pensava em como o amor, mesmo quando não acontece, ocupa espaço. O rádio tocava qualquer coisa antiga, uma canção que falava de promessas. Foi nessa altura que decidi ir ao cinema. Um gesto quase instintivo — fugir do que dói, esconder-me entre sombras projectadas num ecrã.
Mas o destino tem o seu sentido de humor. O filme era de amor.
E eu, sentado entre desconhecidos, vi-me a viver tudo de novo — o primeiro olhar, a primeira vez que o meu coração tropeçou no dela. Cada gesto dos actores parecia uma tradução imperfeita do que sinto.
No escuro da sala, percebi que o amor é uma ferida bonita: dói, mas ilumina.
Agora escrevo sob a luz fraca do candeeiro.
O quarto é um pequeno universo feito de papel, silêncio e memória. Lá fora, o mundo deve continuar a girar, mas aqui dentro o tempo estagnou.
Amo-a. Não há metáfora possível. É simples e brutal como a própria vida.
O relógio insiste em bater, teimoso. Conto os segundos, como se cada um pudesse trazer o amanhã. Talvez o dia seguinte me devolva o riso dos amigos, ou um aceno dela, ou apenas a leveza de existir sem este peso no peito.
Mas por agora, fico assim — entre o sonho e o real, entre o que sou e o que ainda não sei ser.
E no fundo de mim, uma certeza amadurece em silêncio:
amar é aprender a esperar.
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