O Papel e o Silêncio

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Sábado, 17 de Maio de 1975

A manhã abriu-se como uma janela limpa sobre o Porto — a luz batia nas fachadas húmidas e arrancava brilhos às pedras, como se a cidade tivesse acordado com vontade de se mostrar viva. O rumor dos elétricos, o cheiro do café, o pregão distante de um vendedor de jornais — tudo se misturava num movimento calmo e cheio de promessas. Eu sentia-me parte desse rumor, e ao mesmo tempo, um espectador silencioso dele.

Fui ter com a Dila perto da Papelaria Pirata, onde o tempo parecia correr mais devagar. O chão, polido por passos antigos, refletia a claridade daquela manhã de quase verão. Ela já lá estava, encostada ao parapeito, o vento a brincar-lhe com o cabelo. Havia qualquer coisa nos olhos dela — uma inquietação doce, como se o mundo inteiro coubesse ali, à espera de ser dito.

— Tens o papel? — perguntou-me, com aquela voz entre o riso e o segredo.

Há alguns dias atrás falara com ela, ao de leve, de que lhe iria dar um papel com um enigma para ela deslindar. No entanto não passava de uma declaração de amor sob várias formas de perguntas, de cujo resultado não havia fuga possível. Qualquer que fosse a resposta seria sempre uma declaração de amor de parte dela.

Levei a mão ao bolso, fingindo uma solenidade que não sentia. Entreguei-lhe a folha dobrada, como quem passa uma fronteira invisível.
— Aqui está ele. Mas aviso-te já que não há saída.

Ela leu, primeiro com curiosidade, depois com surpresa. E então vi — um rubor leve, como uma confissão que se anuncia mas ainda não se quer dizer. Dila baixou o papel e olhou-me — e nesse instante, o mundo pareceu suspender-se.

— Isto é uma armadilha! — disse, entre o riso e a defesa.

— Eu avisei. — Cruzei os braços, divertido. — Tens vinte e quatro horas para decidir como vais sair dela.

Ela abanou a cabeça, mas os olhos brilhavam.
— E se eu não quiser responder?

— Então é essa a tua resposta.

Ficamos em silêncio. O som da cidade ao redor, o tilintar das chávenas num café próximo, uma criança a rir ao longe. Pequenas coisas que, por alguma razão, pareciam ganhar peso.

Quando nos despedimos, ela levou consigo o papel, e eu fiquei com o vazio que ele deixava. Senti, sem saber explicar, que aquele pequeno jogo tinha aberto qualquer coisa — uma porta, talvez, para um território novo onde o coração ainda andava aos tropeções.

Voltei para casa com o corpo leve e a cabeça cheia. Lanchei, vi televisão, ri de um programa qualquer sem perceber porquê. Mas, por baixo de tudo isso, a presença dela latejava, como uma música baixa que não se cala.

À noite, no quarto, escrevi o que lembrava do dia. As palavras saíam devagar, como se tivessem medo de se mostrar. Falei da luz, do riso dela, do vento que lhe mexia no cabelo. E percebi que não era apenas um registo do que acontecera — era uma tentativa de fixar o que estava a mudar em mim.

O candeeiro lançava sombras suaves na parede, e eu sentia o peso doce da noite a descer. Pensei no papel na mala dela — aquele pequeno pedaço de mim que agora viajava com ela.

Fechei os olhos, tentando dormir. Mas o sono não vinha. A mente insistia em voltar ao instante em que ela me olhou, ao sorriso que hesitou entre o medo e a curiosidade. E percebi — talvez pela primeira vez — que o sentir começa sempre assim: num gesto pequeno, quase banal, que de repente ilumina tudo.

Lá fora, a cidade adormecia.
Cá dentro, algo em mim começava a acordar.