A Noite em Suspenso
Sexta-feira, 16 de Maio de 1975
A manhã chegou devagar, como se tivesse medo de me acordar. A luz atravessava as cortinas num desenho trémulo, e por instantes fiquei ali, deitado, entre o que era sonho e o que era vida. Havia em mim uma inquietação doce, dessas que não se explicam, apenas se sentem a crescer no peito. O dia começou como todos os outros, mas algo — uma vibração qualquer — fazia tudo parecer diferente.
As aulas correram lentas, como se as horas estivessem cansadas de andar. Os professores falavam e eu fingia ouvir, mas o pensamento fugia-me, teimoso, para o sorriso da Dila. Às seis e dez, saí com o Benjamim e o Manel. Eles falavam do costume — futebol, música, o filme do sábado —, e eu respondia por reflexo, enquanto a cabeça já caminhava à frente do corpo. Quando o trólei parou, despedi-me apressado. Senti, não sei porquê, que algo estava prestes a acontecer.
E aconteceu.
Ela vinha na minha direcção, com aquele andar leve de quem parece não tocar o chão. O coração fez-me o favor de esquecer o compasso. Dila — só o nome já me bastava para ficar sem chão.
— Dila! — chamei, sem pensar, como quem encontra um pedaço perdido do dia.
Ela sorriu. O mundo inteiro cabia nesse sorriso. Disse que viera comprar comida para os periquitos. E eu, de repente, invejei os pássaros.
Conversamos — ou fingimos conversar — sobre tudo e nada: o calor que já se fazia sentir, os professores, os sonhos pequenos que ainda não sabíamos serem impossíveis. Ela mordia o lábio quando hesitava, e cada gesto seu parecia guardar um segredo. Quando olhou o relógio e suspirou, percebi que o tempo, invejoso, queria acabar com o encanto.
Disse-lhe que esperava por ela.
E esperei.
Encostado a um muro, a vê-la através do vidro da mercearia, senti uma estranha serenidade. Era como assistir a um sonho sem querer acordar. O som da rua dissolveu-se, e fiquei só eu, o reflexo dela no vidro e o coração, que batia como se quisesse aprender uma nova linguagem.
Voltamos a caminhar juntos. Falamos de livros, de música, e do verão que se aproximava devagar — essa estação que prometia tudo e cumpria quase nada. Antes de nos despedirmos, arrisquei o convite.
Ela disse sim.
E aquele “sim” soou-me a promessa, mesmo que não fosse.
À noite, o céu parecia lavado, cheio de lua e de segredos. Saí sozinho, com a alma em pulso. As ruas estavam quase desertas, e o eco dos meus passos fazia-me companhia. Virei uma esquina — e o destino, com o seu humor imprevisível, mostrou-me a Dila, agora ladeada pela família.
Por um instante, senti-me um intruso no meu próprio sonho. Ela chamou o meu nome, e o som foi tão real que quase me doeu. A mãe olhou-me de alto a baixo — um olhar rápido, mas suficiente para me pôr em sentido. O irmão e a irmã passavam ao lado, distraídos, e eu ali, a tentar parecer natural no meio do desconforto.
Foi então que apareceu o Benjamim, salvador de momentos embaraçosos, com o violão às costas e aquele ar de quem traz a vida inteira afinada em Sol maior.
— Vamos tocar um bocado? — disse.
E fomos.
A Dila ficou por perto, sentada na sombra. Tocamos e cantamos, e entre os acordes e as vozes eu sentia o olhar dela pousar em mim — leve, curioso, quase cúmplice. Quando as horas correram até às onze, despedimo-nos com a doçura dos que ainda não sabem o peso da saudade.
Caminhei para casa devagar. As ruas pareciam mais largas, mais silenciosas.
No ar, ficava a vibração de algo novo — uma ternura que doía, um pressentimento de crescimento.
Era como se o coração tivesse dado um passo à frente do corpo, e eu apenas o seguisse, sem saber bem para onde ia.
Talvez fosse isso o começo de crescer: aprender a sentir sem entender.
E naquela noite, com o som distante do violão a desaparecer nas esquinas, percebi que a vida começava — ali, entre o medo e o brilho do olhar da Dila.
« Página anterior / Índice / Página seguinte »