O Lugar Onde o Silêncio Cresce
Quinta-feira, 15 de Maio de 1975
A manhã chegou como uma folha nova, ainda húmida de luz. O ar entrava pela janela entreaberta e fazia dançar a cortina — esse gesto lento que me fazia pensar em liberdade. Estudava sem vontade, perdido entre datas e fórmulas, quando a voz da minha mãe rasgou o silêncio, doce e firme, como só ela sabia fazer.
— Tono, anda ajudar-me a fazer um ninho para os coelhinhos. Estão ao frio e não sobrevivem assim.
Larguei os livros como quem larga um peso. O mundo parecia mais verdadeiro lá fora. Acompanhei-a até à coelheira. O vento da manhã era uma faca pequena a cortar o ar, e os coelhinhos, minúsculos, tremiam no seu canto, amontoados em vida e fragilidade. Fizemos-lhes um abrigo com palha e ternura. A mãe olhou-me com aquele olhar que diz tudo sem precisar de dizer — o mesmo olhar que, mais tarde, reconheci em Dila.
Ao meio-dia, saí. O sol já se erguia alto, com aquela arrogância de Maio. Passei pela casa do Benjamim, e juntos seguimos para o liceu, falando pouco — o costume. A rotina tinha o sabor morno do pão da véspera. No jardim da escola, sentei-me um instante. Os colegas corriam, riam, fumavam escondidos. Eu, porém, pensava nela — na curva do seu sorriso, na doçura breve com que me dizia o nome.
Pedi dispensa ao professor de ginástica. Ele acenou com a mão, indiferente, e foi quanto bastou para eu partir — uma liberdade mínima que me bastava para voar até à possibilidade de a ver.
Antes de chegar à paragem do trólei, olhei para o outro passeio. Lá vinha ela — Dila — o cabelo preso num gesto descuidado, o passo leve, o mundo inteiro a acontecer-lhe nos olhos.
— Dila! — chamei.
Ela parou, hesitou, e depois sorriu. Esse instante em que ela me reconheceu foi como uma revelação: tudo o que eu sentia, o que ainda não sabia nomear, estava ali.
— Olá, António! Não esperava ver-te agora.
— Também não sabia se te encontraria... mas tive esperança.
Ela baixou os olhos e sorriu outra vez. A vida cabia nesse sorriso.
Começámos a caminhar lado a lado. Falámos do dia, dos professores, de coisas pequenas — como se as palavras fossem apenas um pretexto para escutar o som da voz um do outro. Contei-lhe dos coelhinhos e ela pareceu enternecida.
— Pobrezinhos! — disse. — E conseguiram aquecê-los?
— Acho que sim. Fizemos um ninho melhor para eles.
Ela inclinou ligeiramente a cabeça — esse gesto que me ficava gravado, como uma fotografia guardada no coração.
O trólei chegou. Ela deixou-o passar, como sempre fazia. Ficámos mais um pouco, o tempo suspenso entre nós, sem coragem de o deixar continuar. O segundo trólei aproximou-se, e o silêncio pesou de leve.
— Amanhã vens para o liceu à mesma hora? — perguntei.
— Sim. Talvez nos voltemos a encontrar...
O “talvez” ficou a ecoar, entre a certeza e o sonho. Quando o trólei partiu, levei a mão ao bolso, como se lá pudesse guardar o momento.
Voltei ao liceu, mas já não estava lá. Nem eu. As aulas passaram por mim como vento por uma árvore — nada ficou.
À noite, depois do jantar, fui ao Porto com o meu pai e o meu cunhado. O caminho era longo e escuro, e a cidade parecia dormir de olhos abertos. No regresso, olhei pela janela do carro e vi o meu reflexo fundir-se com o luar. Foi então que percebi: algo em mim começava a mudar.
Não digo à Dila que a amo. Talvez porque ainda não sei o que isso significa. Mas sinto que o amor é isto — o arrepio de uma manhã fria, o calor de um ninho improvisado, o silêncio entre duas frases, a espera junto à paragem.
Há coisas que não precisam de ser ditas para serem verdadeiras.
E assim termino o dia — entre o real e o sonhado — com o coração cheio e o pensamento em sobressalto. O rapaz que esta manhã ajudou a salvar coelhinhos começa, sem o saber, a salvar também o seu próprio coração do frio do mundo.
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