Entre a Luz e o Silêncio

Quarta-feira, 14 de Maio de 1975

A manhã chegou sem pressa, como se o mundo tivesse esquecido de acelerar. O sol insinuava-se por entre as frestas da janela, derramando sobre o chão do quarto uma luz baça que parecia dormir. Levantei-me devagar, carregando comigo o torpor da noite, e senti um leve desejo de ficar ali, entre o lençol e os sonhos, onde tudo ainda podia ser possível.

Na escola, o dia arrastou-se com a costumeira lentidão. Um exercício de História correu-me melhor do que esperava; o orgulho foi silencioso, quase imperceptível, mas trouxe consigo uma estranha sensação de maturidade, como se cada resposta certa tivesse deixado uma marca discreta no coração. A meio da tarde, a última aula foi dispensada, e senti a liberdade a escorrer pelos dedos, pequena e saborosa.

O boato da bomba espalhou-se pelos corredores como vento inquieto. Houve medo, sussurros, a excitação de algo que poderia ter sido catastrófico. Fomos evacuados, e o riso nervoso misturava-se com a apreensão; talvez fosse só uma brincadeira de mau gosto, mas mesmo assim, algo dentro de mim permaneceu em alerta. Talvez seja isso crescer, perceber que a vida é frágil e imprevisível.

Depois, o quotidiano voltou com a sua doçura simples. Benjamim apareceu e jogámos à bola, perdendo-nos no movimento, nos passes, nos risos que explodiam sem razão. Antes de partir, falou-me de uma volta à noite, violão incluído. Aceitei, sem hesitar. Havia algo em mim, um impulso silencioso, que ansiava por ver a cidade sob a luz da lua, e talvez, apenas talvez, pelo reflexo de Dila nos meus pensamentos.

A noite caiu suave quando saí de casa. O primeiro desafio de futebol já tinha passado, mas não me importei. Peguei no casaco de couro e senti o vento a roçar-me a pele, como um aviso de que o mundo, mesmo comum, guardava segredos e promessas. Caminhámos sem pressa, passando pela casa de Dila. O coração bateu mais rápido ao passar pela janela onde a sua presença se insinuava apenas em sombras, um reflexo tímido da vida que ela levava dentro de casa.

Mais adiante, sentámo-nos num recanto silencioso. Benjamim dedilhava melodias que pareciam desfiar o tempo, e eu deixei-me ficar, entre o som do violão e o silêncio da noite. Meu olhar, inevitavelmente, voltava-se para a sua casa, à procura de qualquer sinal dela. Era impossível separar o real do que eu imaginava: cada sombra parecia carregar o seu riso, cada luz apagada, o seu suspiro. E percebi que o meu coração amadurecia sem alarde, reconhecendo a beleza e a dor de sentir.

Quando finalmente nos levantámos, percebi que as luzes lá dentro se apagavam. A noite também se encerrava para ela. Senti um peso doce no peito, uma mistura de silêncio e lembrança, e compreendi que a vida se constrói nessas pequenas lacunas, entre o toque do violão e a visão de um reflexo através da janela.

Em casa, sentei-me à escrivaninha e escrevi estas linhas, como quem segura uma memória para não a deixar escapar. O papel absorvia o dia, e eu sentia que terminara da forma certa: simples, com fragmentos de tempo que falam de emoção, de crescimento silencioso. A noite já se instalara há muito, mas não havia pressa para dormir. Havia apenas o pulso lento dos meus pensamentos, embalando-me para o descanso, e a lembrança delicada de Dila, que continuaria a despertar meu coração, ainda que invisível.


« Página anterior / Índice / Página seguinte »