O Eco de um Olhar

Terça-feira, 13 de Maio de 1975


A manhã nasceu inquieta, como se soubesse que eu aguardava algo que podia mudar a forma de respirar. Desde o despertar, o pensamento em Dila ocupava todos os recantos da mente: o sol que entrava pela janela parecia querer apressar-me, mas a minha pressa chocava com o ritmo vagaroso do mundo. Preparei-me devagar, como quem teme estragar a perfeição de um instante que ainda não aconteceu.

Cheguei ao local combinado alguns minutos antes, e o silêncio da rua parecia cúmplice da minha ansiedade. Cada passo meu ecoava na calçada, e eu sentia o coração a bater de um modo novo, diferente de qualquer outro dia. E então, como se o próprio tempo tivesse decidido ceder, ela surgiu. Um sopro de movimento que fez o resto desaparecer, e o mundo, por instantes, ficou suspenso.

— Olá, António! — disse ela, sorrindo. O meu nome na sua boca tinha o som das manhãs claras, da promessa de pequenas alegrias.

— Olá, Dila! Estás bem? — tentei manter a voz firme, mas o coração insistia em saltar.

— Sim, e tu?

— Agora melhor.

Ela corou e riu-se. Aquele riso era uma música simples, que parecia deixar o ar mais leve, e eu senti uma espécie de calor crescer dentro de mim, silencioso, quase tímido.

Falamos de tudo um pouco. Do teste de Matemática que ninguém queria repetir, das histórias da escola, dos professores, dos colegas. Cada palavra dela parecia arrancada de uma calma que eu desconhecia, e ao mesmo tempo despertava em mim algo profundo — uma espécie de consciência do mundo, da vida, e da dor doce que vinha com o sentir.

— Aposto que tiveste todas certas! — provoquei, e ela piscou-me o olho, mantendo o mistério que eu já adorava.

Falamos de minutos, que se alongavam como horas perfeitas, até que o troleicarro surgiu, silencioso, tentando roubar-nos o momento. Mas ela, talvez consciente do que valia aquela pausa no tempo, deixou-o partir. Sorri, sentindo-me cúmplice de um segredo que não precisávamos de nomear.

— Estás a fazer isso de propósito, não estás? — disse eu, com leve provocação.

— Quem, eu? Imagina! — respondeu ela, com aquele sorriso que guardava mundos inteiros.

Quando finalmente o troleicarro seguinte surgiu, soubemos que a despedida era inevitável.

— Agora tenho mesmo de ir — suspirou, como se até as palavras fossem pesarosas.

— Queria que ficasses mais tempo…

— Eu também… Mas prometo que nos vemos outra vez, em breve.

Vi-a subir, desaparecer na distância, e percebi que, naquele instante, algo em mim crescera. Um coração que aprendia a doçura da ausência, a beleza de um olhar que parte e deixa memória. As aulas que se seguiram passaram sem brilho, sem pressa, mas com a memória daquele instante a acompanhar-me em cada gesto trivial: as conversas com o Benjamim e o Manel, as risadas pelo caminho, o lanche, o jantar, a ida ao café com o meu pai. Tudo parecia normal, mas, ao mesmo tempo, impregnado por uma suavidade que só os dias marcados por alguém especial conseguem deixar.

Quando a noite caiu, e o silêncio se estendeu pela casa, senti que o meu coração, em silêncio, amadurecia. Não havia palavras para isso, apenas a certeza de que algo tinha mudado, que a vida, mesmo na sua rotina, podia conter instantes de magia que ninguém podia roubar. E adormeci com o eco do seu olhar, a recordar-me que sentir é, às vezes, mais importante do que qualquer coisa que se possa tocar.


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