Luz de Maio
Segunda-feira, 12 de Maio de 1975
A manhã entrou sem bater, pálida, quase tímida, e eu senti o quarto suspenso entre o ontem e o agora. As palavras da Dila ainda dançavam na minha cabeça — o sorriso, o gesto, o som da sua voz a preencher cantos onde eu nem sabia que havia eco. Cada passo que dei para a escola parecia arrastar consigo a sombra leve desse encontro; os corredores, as aulas, o quadro-negro… tudo parecia menos rígido, menos definitivo, como se o mundo tivesse suavizado a dureza dos dias.
As aulas avançavam, mas eu ouvia apenas o eco das nossas palavras trocadas. O professor falava de datas e acontecimentos, mas eu pensava em como o olhar dela se detinha, em como um gesto pequeno podia sustentar universos inteiros. O tédio da sala misturava-se com a doçura inesperada que me atravessava — uma sensação que não sabia nomear, e que talvez só os dias deixassem amadurecer.
Quando a campainha tocou, o regresso a casa foi lento. A minha mãe sorria com naturalidade, o lanche fumegava, mas a minha atenção flutuava em outro lugar, entre o cheiro do pão e a lembrança dela. Com o meu pai, fomos buscar vinho. Enquanto ele falava com o lavrador, eu caminhava entre sombras longas e vinhas alinhadas, imaginando como seria segurar a mão dela, ou ouvir a sua risada refletida nos campos. O sol caía devagar, e o mundo parecia curvar-se para nos ouvir, como se conhecesse segredos que eu ainda não sabia contar.
No quarto, o livro sobre as pernas era só um pretexto. As palavras lidas eram ecos do que vivemos ontem, entrelaçando-se com a memória do toque, do olhar, do instante em que senti o coração a crescer sem alarde. Fechei os olhos por um momento, e vi o seu sorriso refletido na luz da tarde, senti o calor da sua presença a preencher os espaços vazios do meu quarto. Tudo se confundia: sonho, lembrança, desejo. A realidade tornou-se líquida, maleável, e eu aprendi a navegar nela sem pressa.
O jantar trouxe o mundo de volta, com vozes altas, risos e champanhe. Mas até entre brindes e conversas, a memória da Dila pairava comigo, leve e insistente. O coração tremeu mais do que a mão, e percebi que a felicidade pode ser silenciosa, quase imperceptível, mesmo no meio do barulho. Um brinde, outro, e eu guardava cada gesto dela, cada palavra que ela me deu sem saber o quanto eu precisava ouvir.
E ontem… ah, ontem! Ainda sinto a pele do tempo marcada por aquele encontro, como se ele tivesse gravado algo dentro de mim que nem os dias mais comuns conseguem apagar. Adormeci com o coração apertado e leve, com o pensamento preso ao brilho dos seus olhos, e acordei sabendo que crescer é também aprender a sentir sem medo, deixar que a memória molhe o presente com a doçura e a dor de um instante que não volta.
O dia termina agora, e a noite cobre tudo com uma manta silenciosa. E eu, em silêncio, aprendo que há uma beleza no sentir que só se revela quando se permite que o coração amadureça, um passo de cada vez, entre luzes, risos e lembranças que ainda sabem a Dila.
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