Entre o Sol e o Silêncio
Domingo, 11 de Maio de 1795
O sol atravessava preguiçosamente as cortinas quando me levantei. Era domingo, e a manhã trazia consigo aquela leveza própria dos dias sem pressa, como se o tempo tivesse decidido dar-me uma trégua. Fiquei ainda algum tempo na cama, sentindo o calor que se espalhava lentamente pelo quarto, e a mente a vaguear entre o que seria e o que já parecia memória. Pensei na Dila, na promessa do encontro, e na forma como o seu sorriso conseguia, mesmo na imaginação, aquecer o peito.
Saí com o Benjamim e o Manel. O plano era simples: encontrarmo-nos com a Dila no sítio de sempre. Mas o espaço que a sua ausência deixava parecia maior do que qualquer praça ou caminho. Por instantes, um nó apertou-se no meu peito, e senti o mundo à volta desvanecer-se, como se tivesse sido pintado de silêncio. Depois lembrei-me do que me dissera na véspera:
— Se eu não aparecer, é porque fui com a minha irmã à festa no Passal.
Compreendi. E a antecipação voltou, mais leve, misturada com a ansiedade das descobertas.
— Ela deve ter ido ao Passal. Vamos para lá! — disse, e os três partimos, sem hesitação.
O caminho pareceu encurtar-se. Entre conversas dispersas, cada pedra do chão parecia ecoar a pressa do meu coração. Chegámos à festa, e o ambiente envolveu-nos como um manto colorido. Os ranchos folclóricos, os cheiros da comida, o burburinho de vozes e risos; tudo me atingia com uma intensidade nova, quase desconcertante. Sentei-me nos degraus da escola do Passal por um instante, absorvendo o movimento, e então os meus olhos encontraram-na.
A Dila estava lá.
O coração bateu com a força de um tambor distante. Levantei-me e chamei por ela. Virou-se, reconheceu-me, e veio ao meu encontro. O sorriso dela apagou todas as incertezas do dia, e por um instante, o tempo pareceu perder a pressa que o próprio sol carregava.
— Queres mostrar-me a exposição? — perguntei, tentando soar casual.
— Claro! Anda comigo — respondeu, e nos seus olhos vi uma centelha que me fez esquecer qualquer cautela.
Percorremos a exposição lado a lado. Eu perguntava, ela sorria. Não respondia com palavras, mas cada olhar era um mapa secreto, cada gesto uma confidência silenciosa. Sentia-me a aprender, lentamente, que a presença de alguém pode ser mais forte que qualquer explicação.
Mais tarde, enquanto os ranchos dançavam ao som da música, eu caminhava ao lado dela, absorvendo o mundo e, ao mesmo tempo, apenas a ela. Num movimento quase imperceptível, inclinou-se ligeiramente em minha direção numa sugestão subliminar de um beijo. Um impulso me convidava a agir, mas algo, mais antigo que a própria vontade, ensinava-me a esperar. O coração amadurecia em silêncio, reconhecendo que há momentos que não se apressam.
O dia passou num misto de euforia e delicada tensão. Ao regressarmos, notei algo diferente nos olhos da Dila: um brilho súbito, uma doçura que não precisava de palavras. E então percebi que o amor pode falar apenas com gestos, que a intensidade não precisa de ser ruidosa, e que responder é, por vezes, apenas existir ao lado de alguém.
A despedida foi breve, mas carregada de significado. Fiquei a vê-la afastar-se, sentindo no peito uma mistura de alegria, inquietação e promessa silenciosa. O mundo parecia maior e mais misterioso do que no amanhecer, e algo em mim já não seria o mesmo.
Regressei a casa com essa certeza, mas o dia, que poderia ter terminado em plena felicidade, teve um desfecho amargo. Um desentendimento familiar estragou o meu ânimo, e o eco das palavras duras deixou-me exausto. Deitei-me tarde, com a memória do seu sorriso e o peso da distância a rodopiarem na mente. No silêncio do quarto, adormeci aos poucos, com a sensação de que algo no meu coração tinha finalmente aprendido a crescer — em segredo, e sem alarde, como as raízes de uma árvore que ainda não se vê.
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