Sábado de Memória e Sol

Sábado, 10 de Maio de 1975

O sol mal despontava quando acordei, mas já parecia querer atravessar os meus pensamentos. Havia expectativa no ar, mas era uma daquelas expectativas silenciosas, que se instala no peito como um perfume que não se vê, mas se sente em cada gesto. Hoje encontraria a Dila, conforme tínhamos combinado, e isso fazia o meu coração bater com uma mistura de nervosismo e calma, como se soubesse que algo belo podia acontecer, mas ainda hesitasse em acreditar completamente.

Ao vê-la ao longe, tudo à volta perdeu importância, como se o mundo tivesse decidido suspender a respiração. Aproximamo-nos, e ela sorriu, um sorriso que parecia conter segredos e promessas.

— Bom dia! — disse ela, ajeitando uma madeixa de cabelo atrás da orelha.
— Bom dia, Dila — respondi, tentando controlar a animação que me subia à voz. — Dormiste bem?
— Mais ou menos… Estive a pensar numa coisa.
— Em quê?
— Em nós.

A simplicidade da resposta atingiu-me com força, deixando-me mudo por um instante, até que a Gisela surgiu, como um sopro de vento inesperado, interrompendo o fio delicado da nossa intimidade.

— Ah, cá estão vocês os dois! — exclamou, entre nós, com um sorriso meio trocista. — Que cumplicidade tão bonita…

A Dila suspirou, e eu senti um pequeno aperto de frustração, aquele tipo de aperto que só cresce quando algo precioso é interrompido. O tempo com ela parecia sempre insuficiente, como se cada momento roubado por terceiros fosse um pedaço do dia que nunca mais voltaria.

Quando finalmente a Gisela se afastou, Dila respirou fundo, e os seus olhos encontraram os meus com uma intensidade silenciosa.

— Eu queria ter falado contigo com mais calma…
— Eu também — murmurei.

Então, como se quisesse gravar o instante, tirou da carteira uma pequena fotografia e entregou-me a mesma.
— Para ti.

Segurei-a com cuidado, consciente de que não era apenas uma imagem, mas um fragmento dela que passava a habitar em mim. E, sem hesitar, tirei da mochila uma rosa que trazia comigo que havia colhido no jardim a escola
e entreguei-a, num gesto simples que se queria tão eterno quanto aquele instante.
— E esta é para ti. Prometo que também te darei uma fotografia minha.

Os olhos dela brilharam, e eu senti uma calma nova crescer dentro de mim. Algo se consolidava, silencioso, mas firme.

Quando teve de partir, ficou comigo apenas a memória tangível da fotografia, que transformava cada minuto de espera, cada silêncio, numa companhia silenciosa, quase viva. O resto do dia passou entre aulas e pequenos gestos do quotidiano: deitei-me na relva do jardim do liceu, observando a fotografia, deixando o sol aquecer o meu rosto, sentindo cada traço dela gravar-se em mim com a paciência dos dias lentos.

Mais tarde, fui com o meu pai ao café, e o hábito silencioso do nosso convívio trouxe-me conforto. Momentos assim tinham algo de essencial, como se fossem âncoras num rio que se move rápido demais. O jantar, o cinema, cada gesto do dia parecia se entrelaçar com a presença ausente da Dila, tornando a rotina mais densa de sentidos.

Sei que os nossos pais não compreendem, que há resistência e censura silenciosa no olhar do mundo. Mas o que importa? O que realmente vale é este sentimento que cresce em nós, invisível mas firme. Amo-a, e sei que ela me ama. Basta.

No fim, quando o sono me veio, carregava comigo a imagem da Dila, o peso e a leveza da fotografia, e uma mistura de sonhos e expectativas. Por breves instantes, pensei ter visto a irmã dela, mas percebi o engano: talvez o destino se divirta a brincar connosco, escondendo-nos por momentos só para depois nos devolver a certeza. Adormeci assim, com o coração que se expandia lentamente, aprendendo, sem alarde, o valor do sentir.





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