O eco da sua voz

 

Sexta-feira, 9 de Maio de 1975

Acordei com a cabeça pesada, como se o sonho da noite ainda me retivesse dentro dele. Custava-me abrir os olhos, e o pensamento, preso a um nevoeiro espesso, voltava sempre ao mesmo ponto: nós dois.

O sonho fora inquietante, mas agora, à luz mansa da manhã, percebo que nele só havia amor — um amor desajeitado, adolescente, desses que ainda não sabem o peso das palavras, mas sentem tudo em dobro.

Passei a manhã prisioneiro dessa lembrança, num torpor estranho entre o real e o sonhado. As horas escorriam lentas, e eu não encontrava ânimo para nada. Quando enfim chegou a hora das aulas, fui mais por obrigação do que por vontade. A inquietação, contudo, não me deixava. No último tempo, decidi fugir dela — e da escola também. Convidei o Benjamim, e escapamos discretamente, como quem desafia o mundo sem grande convicção, mas com prazer.

Em casa, fiz um lanche apressado e, sentindo a urgência do ar livre, peguei na bicicleta. Pedalei até que o corpo esquecesse o peso da manhã. Mais tarde, o Benjamim veio chamar-me: tínhamos de levar comida ao cavalo do seu tio. No caminho, encontramos o Manel, e os três seguimos juntos até ao monte, esse refúgio onde o tempo parecia ter outro ritmo e a liberdade cabia inteira dentro de um pôr-do-sol.

Sentamo-nos entre as pedras e o silêncio, sem necessidade de dizer grande coisa. O vento vinha leve, e por um instante esqueci tudo. Mas o dia, inevitável, começou a cair.

De regresso, paramos num ponto alto de onde se avistava a casa da Dila. Peguei nos binóculos e procurei o rosto que não me saía da cabeça. E lá estava — a irmã dela, primeiro, que nos viu e nos acenou; depois, a mãe, surgindo inesperadamente, como um alarme silencioso. Fechei os binóculos num instante e segui o caminho sem olhar para trás.

Mas dentro de mim, a agitação crescia. Queria vê-la, ouvi-la, nem que fosse por um breve instante — apenas o suficiente para me convencer de que o sonho da noite não era tudo invenção.

Assim que jantei, saí novamente, levado por um impulso que já nem tentava disfarçar. Aproximei-me da casa dela, escondi-me entre as moitas e esperei. O tempo pareceu alargar-se ali, em silêncio, até que — como uma graça concedida — ouvi a sua voz. Foi o bastante. Um arrepio percorreu-me o corpo, e o coração bateu mais depressa, como se tivesse sido visto.

Regressei a casa devagar, com a alma cheia e um sorriso que não pedia explicação. Adormeci embalado pela lembrança da sua voz — uma melodia suave que prometia repetir-se no dia seguinte, quando, inevitavelmente, os nossos olhares se cruzassem de novo.