A distância do impossível

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Quinta-feira, 8 de Maio de 1975

A manhã trouxe a luz pálida através da janela, arrastando-me para fora do torpor da noite. O dia começou como qualquer outro, com a rotina das aulas a desenrolar-se sem grandes percalços. Tive a sorte de não ter as duas primeiras aulas, o que me permitiu ficar mais tempo na cama, e também a última da tarde, o que me deu a oportunidade de sair mais cedo. Como não precisei de ficar, vim embora com o Manel, que já se tornara uma presença habitual nos meus dias.

Enquanto caminhávamos, conversámos sobre coisas triviais, até que surgiu a ideia de irmos ao monte. O tempo estava agradável, uma brisa ligeira corria pelo ar e a ideia de nos afastarmos um pouco da confusão da vila pareceu-nos convidativa.

— E se fôssemos até ao monte depois do lanche? — sugeriu o Manel, com um brilho de entusiasmo nos olhos.
— Parece-me bem. Encontro-te em tua casa daqui a pouco — respondi sem hesitar.

Assim que acabei de lanchar, fui ao seu encontro e partimos juntos, sem pressa. O caminho fez-se de conversas soltas, interrompidas aqui e ali pelo canto dos pássaros ou pelo som dos nossos próprios passos sobre a terra batida. Andámos um bom bocado à procura de um local que nos agradasse, até que finalmente encontrámos um canto sossegado, onde a sombra das árvores nos protegia do sol e o vento trazia um aroma fresco de ervas silvestres.

Sentámo-nos e tirámos os livros que trazíamos connosco. Durante quase duas horas, deixámo-nos levar pelas histórias que líamos, interrompendo apenas para comentar um ou outro trecho que nos chamava a atenção. O silêncio do monte, quebrado apenas pelo farfalhar das folhas e pelo ocasional canto de um melro, era um refúgio perfeito para quem queria fugir à rotina.

Quando o sol começou a descer no horizonte, decidimos regressar. O caminho de volta foi tranquilo, até que, ao passarmos por um ponto mais elevado, avistei ao longe a casa da Dila. O coração bateu-me mais forte e, instintivamente, tentei descortinar algum sinal dela. Por um momento, vi um vulto passar diante de uma janela, mas a distância era grande e não consegui perceber se era ela ou a irmã. Hesitei por um instante, mas acabei por seguir caminho.

Cheguei a casa a tempo do jantar. A mesa estava posta e o cheiro da comida espalhava-se pela cozinha, reconfortante. Jantei sem grande pressa e depois acompanhei o meu pai até ao café, como era hábito. Ele conversava com os amigos, enquanto eu, mais calado, deixava os pensamentos vaguear.

De volta ao meu quarto, sentei-me à secretária e peguei no diário. A luz amarelada do candeeiro iluminava as páginas e, enquanto escrevia, deixei-me embalar pelas memórias do dia. O vulto que vira junto à janela continuava a pairar na minha mente, como uma sombra indistinta de algo que desejava, mas que parecia sempre distante.

A noite trouxe o silêncio, mas não a paz. Fui submetido a uma dura prova, tudo num pesadelo que me atormentou sem tréguas. O sono não foi descanso, foi inquietação. Entre imagens difusas e emoções cortantes, o sonho prendeu-me numa teia de dúvidas e desejos, sempre com a Dila no centro de tudo.

Lembro-me apenas de fragmentos: um corredor escuro, uma porta que se abria e fechava sozinha, o som de passos apressados atrás de mim. Vi o vulto outra vez, mas agora aproximava-se, e a sua silhueta parecia ganhar forma, cor, respiração. Era ela — ou era o que o meu coração queria que fosse. Estendia-me a mão, e quando estava prestes a tocá-la, o chão fugia-me dos pés. Caía num vazio que parecia não ter fim, e o rosto dela, antes tão nítido, desvanecia-se até se confundir com o próprio ar.

Acordei sobressaltado, o peito a arfar, o suor frio na testa. Durante alguns segundos, não percebi onde estava. O quarto parecia outro — como se a sombra do sonho ainda o ocupasse. Fiquei imóvel, a escutar o silêncio. Lá fora, o vento agitava as persianas, e o relógio marcava as horas lentas da madrugada.

Não consegui voltar a dormir. Fiquei deitado, olhos abertos, a pensar no que tudo aquilo queria dizer. Talvez fosse o medo de perder algo que nunca cheguei a ter. Ou talvez fosse apenas o coração a tentar avisar-me de que a distância entre nós não se mede em metros, mas em impossibilidades.

No entanto, mesmo cansado, senti um estranho consolo: sonhar com ela, por mais doloroso que fosse, ainda era uma forma de a ter por perto.