Sombras de um passado recente

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Quarta-feira, 7 de Maio de 1975

O sol ainda hesitava entre o céu e o horizonte quando saí de casa. A luz suave filtrava-se pelas copas das árvores, salpicando a rua com manchas douradas. O ar fresco da manhã tinha aquele cheiro a terra húmida e promessas por cumprir, e, por breves instantes, deixei-me levar pela sensação de que tudo estava no lugar certo. Caminhei devagar, ouvindo o eco dos meus passos na calçada, como se o mundo inteiro estivesse a acordar comigo. As aulas decorreram sem grandes novidades e terminaram às seis e dez. Saí da escola com um colega de turma, conversamos um pouco pelo caminho, mas a minha mente estava noutro sítio.

Assim que cheguei a casa, tratei de lanchar rapidamente, agarrei nos binóculos e montei na bicicleta. O destino já estava escolhido: aquele recanto, perto da casa da Dila, onde tantas vezes estive com ela.

Parei a uma distância segura e esperei. O tempo passava, e eu tentava encontrar-lhe um sinal, um vislumbre sequer da sua presença. Mas a rua mantinha-se vazia, indiferente à minha espera.

Sentei-me na relva, deixando a bicicleta tombada ao lado. Foi então que a memória se impôs. Aquele lugar não era apenas um esconderijo de hoje, mas um palco de ontem. Foi ali que, tantas vezes, eu e a Dila nos refugiamos do resto do mundo. Ainda me lembrava do som das nossas vozes entrelaçadas, das palavras sussurradas com receio de serem escutadas por alguém que passasse por perto. Lembrava-me do brilho dos olhos dela, dos gestos tímidos, do riso contido que, por vezes, lhe escapava sem querer.

Agora, restava o silêncio. O vento agitava as folhas das árvores, e os últimos raios de sol tingiam o céu de tons dourados. Mas a Dila não estava ali. Nem ela nem ninguém. Apenas eu e as sombras de um passado recente.

Esperei mais um pouco, como se a teimosia pudesse mudar o destino, mas foi em vão. Por fim, rendi-me à evidência e pedalei de regresso a casa.

Assim se fechou mais um dia. E, no regresso, percebi que há ausências que pesam mais do que o silêncio, e esperas que não se cumprem por mais que a vontade insista. Talvez o tempo saiba o que eu ainda não entendo: que nem sempre o coração encontra resposta no lugar onde a deixou. Resta-me a memória, que dói e consola ao mesmo tempo, e a certeza de que amanhã voltará a nascer um sol — e com ele a esperança, teimosa, de a ver de novo.