Entre a rotina e o acaso

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Terça-feira, 6 de Maio de 1975

A manhã despontou sem alarde, com a luz suave a filtrar-se pelas frestas da persiana. Primeiro, o mundo pareceu-me indistinto, enevoado, mas aos poucos o corpo despertou e o dia tomou forma.

Hoje o tempo correu mais devagar, como se soubesse que eu precisava de um dia mais leve. Só tive três aulas, e a súbita liberdade de uma tarde sem obrigações fez-me sentir dono do meu próprio tempo. Há algo de especial em sair da escola mais cedo, enquanto os corredores ainda ecoam passos e vozes apressadas. É como escapar sorrateiramente de um compromisso invisível, como se por um momento a rotina me tivesse esquecido.

O ar lá fora estava morno, agradável. Não havia pressa em chegar a lado nenhum. Apenas a promessa de um dia que ainda podia ser inventado.

Quando cheguei a casa, a minha mãe já tinha o lanche pronto. Comi sem pressa, saboreando o pão com marmelada e o copo de leite morno. Depois de arrumar a loiça na banca, decidi aproveitar o resto da tarde para dar uma volta de bicicleta. Peguei nela e saí sem destino muito definido, deixando que as pedaladas me levassem onde quisessem.

Acabei por seguir caminho até à mina, um lugar onde gostava de ir quando precisava de estar sozinho e pensar. Havia algo de misterioso naquele sítio abandonado, uma espécie de refúgio onde o tempo parecia correr de maneira diferente. Mas, ao chegar lá, lembrei-me que estava perto da casa da Dila. A ideia surgiu de repente: e se desse um salto até lá?

Não queria ser visto, então fui pelo lado menos frequentado, atravessando o pequeno bosque que ficava atrás da propriedade. Aproximei-me devagar, sem fazer barulho, quase a suster a respiração. Esperei alguns minutos, observando a casa, mas não havia qualquer movimento. Nem sinal dela.

Fiquei ali mais um pouco, hesitante, talvez à espera de um acaso feliz, de um vislumbre seu à janela ou de um som que indicasse que estava por perto. Mas nada aconteceu. Sentindo que já não fazia sentido permanecer ali, virei costas e regressei pelo mesmo caminho.

Ainda era cedo quando cheguei de novo ao centro da vila. Como não me apetecia voltar logo para casa, lembrei-me da biblioteca móvel da Fundação Calouste Gulbenkian, que passava por ali de tempos a tempos. Segui até ao local onde costumava estacionar e, para minha sorte, lá estava a carrinha cinzenta, com as suas prateleiras recheadas de livros à espera de novos leitores.

Entrei e passei os olhos pelos títulos. O cheiro a papel envelhecido misturava-se com a madeira encerada das prateleiras. Escolhi dois livros – um de aventuras e outro de história – e registei-os no cartão de leitor. A bibliotecária, uma senhora simpática de óculos redondos, sorriu ao entregar-me os livros e desejou-me boas leituras.

Já satisfeito com o meu pequeno achado literário, voltei para casa. O jantar decorreu como de costume, entre as conversas triviais da família e o som distante da rádio a tocar uma música qualquer. Depois, vi um pouco de televisão, mas sem grande interesse.

Agora estou no meu quarto, deitado na cama, com o diário aberto sobre os joelhos. A caneta desliza no papel ao ritmo dos pensamentos que vão ficando presos nestas páginas. O dia foi calmo, sem sobressaltos, mas até os dias tranquilos guardam pequenas centelhas de vida. Talvez, daqui a uns anos, ao reler estas palavras, encontre nelas um sentido que agora me escapa. Fecho o diário com cuidado, como se guardasse um segredo, e apago a luz. O silêncio envolve o quarto, e adormeço a imaginar como será o amanhã.