O Jogo das Sombras
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Segunda-feira, 5 de Maio de 1975
A manhã trouxe de volta a rotina como um despertador teimoso que não se cala. O brilho de ontem ainda se agarrava a mim, mas as horas arrastavam-se devagar, como se a escola fosse um daqueles filmes a preto e branco que ninguém escolhe ver. Entre livros, palavras e números, pouco ou nada se fixava. Tudo entrava e saía da cabeça sem pedir licença, como se lá dentro houvesse uma porta giratória.
Às seis e dez, empurrei o portão da escola para fora. O Manel esperava-me, encostado ao gradeamento, de braços caídos e ar de quem já tinha visto o fim do mundo. Fizemos o caminho juntos, a trocar lamúrias sobre professores implacáveis e trabalhos que pareciam castigos medievais. No fundo, a escola era um intervalo forçado entre os bocados de vida que realmente importavam.
— Achas normal? Três testes esta semana? — bufou ele, braços no ar.
— Só querem ver-nos a sofrer — ri, empurrando-o de leve.
Chegados a casa da avó dele, fiquei à porta enquanto subia a pousar a pasta. Minutos depois, seguimos para minha casa. O lanche esperava-me, mas engoli-o às pressas. Tinha um compromisso secreto, daqueles que não se contam nem à sombra. O Manel sabia. Por isso, caminhámos juntos até perto da casa da Dila, como dois espiões de bairro.
O nosso pacto era simples: durante um mês, só ao fim-de-semana, e sempre às escondidas. Para mim era mais do que um jogo, era fogo disfarçado de brincadeira. O Manel, menos inflamado, ia largando piadas. Eu só lhe respondia a meio gás, os olhos fixos em qualquer sombra que pudesse anunciar a presença dela.
O tempo foi passando e decidimos dar a volta para regressar. Mas, ao cortar caminho pela estrada de trás, o destino pregou-me uma partida: lá estava ela, com a mãe e a irmã. Fiquei colado ao chão. O coração, um tambor. A brisa mexia-lhe os cabelos como se o mundo todo conspirasse para me deixar sem ar.
— Não me digas que vais ficar aí feito estátua! — gracejou o Manel.
— Acho que ela me viu... e a mãe também — murmurei.
— E então? Qual é o drama? Não fizeste nada de errado.
— O problema não é o que fiz, é o que ela pode pensar...
A dúvida ficou a mastigar-me por dentro. Se me tinha visto, teria percebido o que eu fazia ali? Ou teria pensado o pior? Fugimos do lugar como quem foge de uma armadilha invisível.
Em casa, o jantar perdeu sabor. A cena repetia-se na minha cabeça como um disco riscado. Tentei distrair-me com a televisão, quando o meu cunhado apareceu:
— Queres vir ver um jogo de hóquei em patins?
Disse que sim. Precisava de outro cenário, outro barulho. O jogo foi intenso, cheio de golos improváveis e disputas que quase rebentavam em pancadaria. Por momentos, a vida pareceu simples: só um stick, uma bola e a velocidade.
Agora, deitado, escrevo com o corpo cansado e a cabeça cheia. Dou por mim a sorrir ao reler o de ontem. Havia nas palavras uma pressa de eternidade, como quem tenta guardar a água nas mãos. Talvez exagere, talvez não. Mas o amor não tem réguas nem medidas. É só sentir — e eu sinto.
Lá fora, a vila respira devagar. O vento brinca nas árvores e os candeeiros lançam piscadelas tímidas às esquinas desertas. O silêncio tem um peso doce. Penso que amar é isto: uma mistura de medo e desejo, um jogo de sombras e luzes, onde o coração é sempre mais teimoso do que a razão. E, no fim do dia, só me resta aceitar que a dúvida também faz parte do caminho.