A Magia do Tempo
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Domingo, 4 de Maio de 1975
O dia amanheceu sem pressa. O sol filtrava-se pelas cortinas, espalhando manchas douradas pelo quarto, e eu fiquei ali, deitado, a ouvir os murmúrios do dia a começar. Tinha um encontro marcado com a minha querida amiga Dila, algures entre as duas e as duas e meia da tarde. Como de costume, combinara ir acompanhado por um colega, que passaria por minha casa para me chamar.
No entanto, o tempo foi avançando, e ele não apareceu. Olhei para o relógio várias vezes, hesitando entre esperar mais um pouco ou ir sozinho. Como já passava da hora, decidi não perder mais tempo e fui ao encontro da Dila.
Cheguei ao local combinado, mas não vi ninguém. As ruas estavam tranquilas, apenas alguns miúdos corriam mais adiante, entretidos com um jogo de berlindes. Sentei-me numa pedra à espera, tentando acalmar a inquietação que se apoderava de mim. A cada instante, olhava ao redor na esperança de ver Dila surgir ao longe, mas o tempo ia passando sem sinal dela. Esperei perto de uma hora, e comecei a sentir que talvez tivesse havido um engano ou um imprevisto.
Foi então que avistei ao longe Benjamim e Manuel, que caminhavam despreocupadamente em minha direcção.
— Então, Tono, há quanto tempo aqui estás? — perguntou Benjamim, lançando-me um olhar curioso.
— Há um bom bocado — respondi, levantando-me e tentando disfarçar a impaciência.
— E a tua companhia, onde está? — quis saber Manuel, trocando um olhar cúmplice com Benjamim.
— Ainda não apareceu… — murmurei, sentindo um leve aperto no peito.
Conversamos durante alguns minutos, mas algo que um deles disse caiu-me mal. Não sei se foi o tom, a insinuação ou simplesmente o meu estado de espírito, mas um mal-estar tomou conta de mim, deixando-me num silêncio pensativo. Permaneci assim durante longos minutos, afastado da conversa, mergulhado em pensamentos sombrios.
Foi então que a vi. Dila aproximava-se acompanhada pela irmã. Num instante, o mal-estar dissipou-se e senti uma onda de calor percorrer-me o corpo. O coração bateu mais forte, e, sem hesitar, virei-me para os meus colegas.
— Vou ter com ela. Quero falar a sós.
Eles lançaram-me um olhar divertido, mas não disseram nada. Deixei-os para trás e caminhei na direcção da Dila. Assim que me aproximei, ela sorriu, e naquele instante tudo o resto deixou de importar.
Passamos a tarde juntos, conversando sobre tudo e sobre nada. O tempo escoava-se depressa demais. Eu tentava absorver cada detalhe dela, dos seus gestos à melodia da sua voz. Queria contemplá-la por inteiro, vê-la de todos os ângulos, mas o seu olhar penetrante prendia-me e impedia-me de desviar os olhos. Eu estava completamente rendido. Apaixonadíssimo.
Dila sorriu, brincando com um fio solto da camisola. — E porquê?
— Para ficar assim… contigo. Sem pressa, sem fim.
Ela baixou o olhar por um instante, mas logo voltou a fixar-me, o azul dos seus olhos cintilando à luz da tarde. — Achas que se o tempo parasse, sentiríamos o mesmo?
— Como assim?
— Se soubéssemos que este momento nunca acabaria, ainda o valorizaríamos da mesma forma? Ou só tem magia porque sabemos que vai terminar?
Fiquei em silêncio por uns segundos, perdido na profundidade das suas palavras.
— Talvez tenhas razão… Mas eu arriscava.
Ela soltou uma gargalhada suave. — És um sonhador.
— E tu és o meu sonho.
Dila corou ligeiramente, mordendo o lábio. — Isso foi um bocado lamechas.
— Eu sei. — Sorri, encolhendo os ombros. — Mas não deixa de ser verdade.
Ela não respondeu de imediato. Apenas olhou para mim, e naquele instante, soube que não precisava de dizer nada. O seu olhar dizia tudo.
O tempo continuou a passar, indiferente à nossa vontade. Mas, naquele momento, pouco importava.
— Gostei de te ver hoje — disse ela, num tom suave.
— Eu daria tudo para que houvesse mais tardes como esta — respondi, sentindo as palavras saírem-me da alma.
Ela sorriu, e naquele momento soube que a minha vida nada valia sem ela. O dia desfez-se no brilho daquele sorriso, e à medida que a noite caiu, levei comigo a certeza de que certos momentos nunca se perdem — ficam para sempre dentro de nós.