Entre Esquinas e Silêncios

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Sábado, 3 de Maio de 1975

A claridade insinuou-se pelas frinchas da janela, suave mas insistente, puxando-me para mais um dia que prometia ser igual a tantos outros e, ao mesmo tempo, diferente. Saí cedo, com aquele frio na barriga que se instala quando se espera o inesperado, o que me fazia andar ligeiramente mais rápido do que o costume. E foi ao dobrar a esquina, entre o roçar das folhas e o murmúrio do mundo a acordar, que a vi. A Dila.

Era inevitável parar. Era inevitável sorrir. Sempre que nos encontrávamos, o tempo parecia derreter-se como cera quente, e desta vez não foi diferente.
— Olá, António! — disse ela, com aquele sorriso que me desarmava sempre.
— Olá, Dila! Para onde vais?
— Ia até à papelaria buscar umas coisas para a minha mãe. E tu?
— Escola… Pois é, ainda temos aulas ao sábado.
— Que seca! — riu-se. — Mas olha, já fizeste o trabalho de História?
— Ainda não. Vou acabar hoje à tarde. E tu?
— Também não. Estava a pensar pedir-te os apontamentos…
— Claro, amanhã posso levar-te. Mas tens de me prometer que não vais copiar tudo.
— Eu? Copiar? — fez-se de ofendida, mas logo desatou a rir. — Só preciso de uma ajudinha.

Falamos sobre tudo e nada, deixando que o tempo nos escorresse pelos dedos sem que nos déssemos conta. O mundo podia esperar lá fora; ali, entre o cheiro da manhã e o riso dela, tudo era mais intenso.
— Tenho mesmo de ir — disse ela, suspirando.
— Eu também. Até amanhã?
— Até amanhã!

Ela seguiu caminho, e eu fiquei a vê-la afastar-se, sentindo que aqueles minutos valiam mais que qualquer aula ou obrigação.

As aulas correram arrastadas, e o resto do dia parecia arrastar-se comigo. Ao chegar a casa, a minha irmã veio ter comigo:
— A Dila veio cá perguntar por ti.

Surpreendeu-me. Vinha à minha procura… mas por quê? Ainda assim, já tinha combinado encontrar-me com o Benjamim e não queria deixá-lo pendurado. Decidi beber um copo de água enquanto esperava, mas ao entrar, ouvi a minha mãe a falar dela. A voz, casual, quase leviana, transformava a Dila numa coisa menor, uma nota de rodapé da minha vida. Um desconforto cresceu dentro de mim, ácido e pesado. Fiz barulho de propósito, só para interromper aquela conversa e afirmar a minha presença.

— Estás sempre atrás dessa rapariga. Olha que nem tudo o que parece é… — disse a minha mãe, com aquele olhar crítico que sempre me deixava sem palavras.

Revirei os olhos, apertei o copo entre os dedos e murmurei:
— A mãe vê sempre as coisas de um modo muito superficial.

Ela ia responder, mas eu já estava de costas, a caminho da porta, sentindo que o tempo fugia e que cada segundo perdido era um segundo a menos para o que verdadeiramente importava.

Quando cheguei à casa da Dila, o Benjamim já estava lá, encostado ao muro, braços cruzados, olhos pregados na rua deserta.
— Pensei que não vinhas — disse ele ao ver-me.
— Tive um pequeno contratempo.

Falamos sobre nada, sobre o dia, teorias disparatadas, pequenas histórias sem sentido, tentando preencher o espaço que a Dila devia ocupar. Mas a noite avançava e ela não aparecia. Olhei para o relógio: dez e um quarto. A rua estava silenciosa, imóvel, como se também esperasse por ela.

— Achas que ainda vem? — perguntou o Benjamim, já sem paciência.
— Não sei… mas não me parece.

O silêncio confirmou o que já sentíamos: não viria. Sem palavras, trocamos um olhar cúmplice e começamos a caminhar de volta. Cada passo parecia ecoar pensamentos mais altos do que qualquer conversa, e ao fechar a porta de casa devagar, senti o mundo adormecer comigo, pesado e quieto.

No fim, percebi que há encontros que nos marcam não pelo que acontece, mas pelo que sentimos na espera, na incerteza, na pequena esperança que insiste em não morrer. E talvez seja isso que torna a vida mais intensa: não são os dias perfeitos, mas os instantes em que o coração nos puxa para algo maior do que nós, mesmo quando ninguém mais parece ver.