Passos na Penumbra
Sexta-feira, 2 de Maio de 1975
A manhã chegou sem pressa, tingindo o céu de tons pálidos como se o dia ainda hesitasse em começar. Os primeiros sons – passos apressados na rua, o roçar de cortinas, o farfalhar de folhas ao vento – filtravam-se pela janela entreaberta. O despertador tocou, mas já estava acordado, fitando o tecto com um ar de quem adia o inevitável. Apenas duas aulas me separavam da liberdade, e, por isso, a escola parecia apenas um intervalo breve entre o sono e o que realmente importava.
Quando saí, o ar tinha aquele cheiro fresco e húmido que só as manhãs de Primavera conseguem ter, a mistura de terra molhada e relva recém cortada a fazer-me sentir vivo. Junto ao portão do liceu, Benjamim esperava-me, encostado ao muro, braços cruzados e um meio sorriso maroto no rosto — sinal evidente de que uma qualquer ideia ingénua já fervilhava na sua cabeça.
— Hoje safámo-nos bem — disse ele, ajeitando a alça da mochila ao ombro. — O que fazemos agora?
— Vamos até minha casa. Lancho qualquer coisa e depois logo vemos.
Foi o que fizemos. Em casa, devorei uma fatia generosa de pão com marmelada e um copo de leite, enquanto Benjamim tamborilava os dedos na mesa, impaciente, como se o mundo inteiro não pudesse esperar.
— E se fôssemos ao salão? Podíamos treinar um bocado.
Não precisei de pensar muito. Em minutos, já estávamos a caminho do pequeno salão onde nos aventurávamos a imitar os movimentos dos filmes ou dos mais velhos que por lá apareciam de vez em quando. Entre gargalhadas, tropeços e suor a escorrer, o tempo passou como água por entre os dedos.
Foi então que apareceu Manuel, iluminado por uma ideia absurda que nos fez esquecer tudo o resto:
— E se fôssemos à caça de grilos? Conheço um campo perto daqui onde há muitos!
A proposta foi aceite sem hesitação. Pegamos em frascos de vidro e partimos, cheios de entusiasmo, como se fôssemos caçadores em busca de um tesouro raro. O campo revelou-se um verdadeiro paraíso escondido: em pouco tempo, cada um de nós tinha dois grilos a saltitar dentro dos frascos. O som deles misturava-se com as nossas gargalhadas, e regressamos sujos de terra, mas vitoriosos, sentindo cada músculo a vibrar de pura alegria.
— Mais logo, às nove? — perguntei a Benjamim, antes de nos separarmos.
— Combinado! — respondeu ele, acenando com um sorriso que parecia prometer aventuras futuras.
À hora marcada, já eu o esperava à porta de casa. Mas, como era costume, Benjamim apareceu com meia hora de atraso.
— Sempre pontual… — brinquei, abanando a cabeça.
— Não sejas chato, vamos lá! — respondeu ele, apressando o passo.
Dirigimo-nos para a casa da Dila. A noite estava fresca, mas a expectativa aquecia-nos o sangue como se fossemos pequenos vulcões à beira de explodir. Instalamo-nos numa penumbra estratégica e esperamos. O tempo parecia derreter-se, cada minuto arrastando-se como se tivesse consciência da nossa ansiedade. Finalmente, um movimento na porta fez-me apertar os binóculos com mãos suadas. Lá estava ela… mas de costas. Antes que pudesse chamar-lhe atenção, desapareceu de novo, fugaz como um sonho que não se consegue agarrar.
Esperei mais um pouco, esperançoso, mas ela não voltou. Por fim, vencidos pelo cansaço e pelo silêncio que só a noite sabe ter, eu e Benjamim desistimos e regressamos a casa. A escuridão engoliu as ruas, e a única música que nos acompanhou foi o cri-cri discreto dos grilos que tínhamos capturado. No campo, a caça fora um sucesso; no coração, nem tanto.
Deitado na cama, senti o peso do dia. Tudo parecia tão simples e, ao mesmo tempo, tão complexo: a amizade, a ansiedade, o desejo de momentos que não controlamos. Percebi que crescemos a pouco e pouco, entre vitórias e pequenas frustrações, e que é nesse espaço silencioso da noite que os nossos sonhos e medos se encontram. Talvez o segredo esteja em aprender a saborear cada instante, mesmo os que passam despercebidos, porque é neles que a vida se revela com toda a sua intensidade.