O Sol que Nos Escapava

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Quinta-feira, 1 de Maio de 1975


O Dia do Trabalhador, pelo segundo ano, trouxe à cidade uma espécie de festa pintada em bandeiras e vozes que se erguiam em coro, carregadas de palavras de ordem. Mas para mim e para o Benjamim, essa celebração tinha outra cor. Não eram os discursos inflamados ou os desfiles que nos interessavam; era a desculpa perfeita para escapar da rotina, para nos perdermos no tempo e no espaço, sem relógios a ditar passos, sem obrigações a apertar o peito. Cada 1.º de Maio transformava-se num pequeno palco de aventuras: ruas, montes e ruelas desconhecidas que nos prometiam conversas inesperadas, rastos de sol a diluir-se no horizonte, e aquele sabor inigualável da liberdade adolescente.

Chegámos ao monte por volta das duas e meia da tarde. O sol brilhava, mas ainda não queimava, apenas aquecia de maneira gentil. Encontramos uma clareira, sentamo-nos e liguei o gravador que trazia comigo. As notas de uma música qualquer preencheram o espaço, e por uns momentos, pareceu que o mundo inteiro se reduzia àquele instante de calmaria, apenas nós dois e o som que se espalhava entre as árvores.

— Isto sim é vida! — disse o Benjamim, recostando-se numa pedra maior, com um sorriso de quem sabia que, por hoje, nada podia tocar-nos.
— Nem me fales... — respondi, fechando os olhos, sentindo a brisa morna que passava leve pelos cabelos.

Não tardámos a mudar de lugar. Subimos até ao Alto do Depósito, onde umas pedras nos receberam como cadeiras improvisadas. Sentámo-nos, deixámos o sol aquecer a pele por um tempo, mas logo procurámos a sombra de umas árvores mais adiante. Foi então que algumas raparigas nos avistaram. Percebi que o Benjamim se distraía, os olhos dele fugiam para elas com curiosidade. Eu tentei ignorar. Até que, finalmente, dei por mim: a Dila estava ali, parada, observando-nos com aquele olhar atento que me fazia sentir um nó na garganta e uma ponta de entusiasmo no peito.

— Olha quem está aqui… — murmurei, com um sorriso que não consegui esconder.

Aproximamo-nos dela, e a conversa fluiu naturalmente, como se os meses entre encontros nunca tivessem existido. Falamos do dia, do sol, da escola, de coisas que nos fascinavam e professores que nos irritavam. Pequenas trivialidades, risos soltos, a sensação de estarmos a perder a noção do tempo. Mas o relógio de Dila não era amigo da nossa liberdade: suspirou e anunciou que tinha de ir.

— Já? — perguntei, meio desapontado.
— Pois é, senão ainda me ralham lá em casa — respondeu ela, com um sorriso que me fez querer enganar o tempo e a família inteira.

O Benjamim despediu-se, e eu voltei sozinho para casa, com o lanche ainda por preparar. Entre fatias de pão e manteiga, a inquietação cresceu: aquele dia parecia querer escapar-me entre os dedos, sem um clímax memorável. Peguei no gravador e regressei ao monte, encontrando Dila com algumas colegas. Sentei-me discretamente à distância. E, num gesto simples, mas que encheu a tarde de magia, ela aproximou-se.

— Voltaste? — perguntou, com um sorriso tímido.
— Pois voltei... A tarde ainda não acabou, não é? — respondi, tentando soar despreocupado.

A conversa fluiu. Tocámos assuntos delicados, como a gravidez da mãe dela, mas desviámo-nos com cuidado, voltando a temas banais, risos e olhares que falavam mais do que palavras. Até que o Manuel chegou, e a tranquilidade foi substituída pela energia ruidosa dele, sempre capaz de acelerar qualquer momento.

Quando Dila se despediu outra vez, segui-a por instinto. Caminhámos juntos, rindo, fingindo coincidências. Mas a realidade bateu na estrada: o pai delas apareceu. Despedimo-nos, cada um seguindo o seu caminho. Tentei mais tarde voltar à casa dela, sozinho, mas apenas encontrei a família. Percebi, finalmente, que certos encontros não podem ser forçados.

E assim o dia acabou, dissolvendo-se na noite como um sopro breve. Mas no silêncio, senti que algo permanecia — a inquietação doce de quem pressente mudanças, de quem sente que momentos simples carregam mundos inteiros. Entre o que foi e o que poderia ter sido, adormeci com a certeza de que cada instante, mesmo fugaz, deixa rastos de luz no coração de quem sabe olhar.