A noite que não chega

Sexta-feira, 8 de Agosto de 1975

Hoje acordei com aquela sensação de ter deixado algo por fechar, como se o dia de ontem tivesse ficado colado às minhas costas. A vergonha ainda latejava — não daquelas que se esquecem com um banho rápido ou uma gargalhada forçada, mas daquelas que ficam a ecoar por dentro como um aviso: não tornes a fazer isso.

Passei a manhã sem grande rumo. O calor, esse, parecia querer empurrar-me para fora de casa, mas o corpo não obedecia. A cabeça insistia em voltar à Dila, às palavras que não disse, às que devia ter dito, e àquela inquietação que cresce sempre que o silêncio se prolonga demais.

À tarde tentei distrair-me, mas era como tentar remar contra a maré com as mãos vazias. Acabei por dar uma volta maior do que o costume — não com a intenção clara de a ver, mas também não completamente inocente. O coração tem os seus truques; finge que não procura, mas procura sempre.

Passei perto da casa dela sem me demorar, quase como quem passa diante de um espelho onde sabe que não quer olhar. Tinha esperança, é verdade — uma esperança teimosa, daquelas que sobrevivem a tudo, até ao bom senso. Mas hoje a casa dela parecia dormir, e eu não quis acordar fantasmas.

Voltei pelo caminho habitual, a pensar no que se avizinha. Há dias em que sinto que tudo entre mim e a Dila pende por um fio tão fino que basta um sopro para se quebrar. Noutros, como hoje, esse fio parece elástico — estica, dói, mas não cede. Talvez seja assim que o amor começa nos adolescentes: num pêndulo entre o medo e a vontade, entre o silêncio e o gesto.

Terminei o dia sentado no quintal, a ouvir os ruídos desta terra como quem escuta uma linguagem antiga. Senti falta dela. E, no meio da noite lenta, prometi a mim mesmo que, amanhã, tentarei ser melhor do que fui ontem.

Porque é nela que penso antes de fechar os olhos.
E é nela que penso quando acordo.


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