Olhar de “Mona Lisa”
Sábado, 9 de Agosto de 1975
De manhã saí novamente com o meu pai, como já vinha acontecendo. O Benjamim juntou-se a nós, com aquele entusiasmo que lhe é tão próprio, e o passeio decorreu sem pressas, como se o tempo também tivesse decidido que era sábado. Quando regressamos, o inesperado trouxe o seu susto: um grande incêndio ardia precisamente no sítio onde tínhamos estado. A visão das chamas, mesmo ao longe, deixou-me com aquela estranha sensação de fragilidade — como se tudo pudesse mudar num instante, sem aviso, sem lógica.
A tarde dissolveu-se em silêncio. Li, dormi, deixei-me ficar a meio caminho entre o mundo e o pensamento. Havia qualquer coisa no ar que me tornava mais contemplativo do que o costume. Talvez fosse o incêndio, talvez fosse a noite anterior, talvez fosse só a velha inquietação de querer ver a Dila e não a encontrar.
Ao fim da tarde fui com o Benjamim buscar uma tenda a um colega nosso — mais um daqueles preparativos que nos fazem sentir crescidos, embora continuemos presos a sonhos que mal sabemos explicar.
Como era de esperar, não encontrei a Dila. Já quase me preparo para isso, mas nunca me habituei verdadeiramente. É uma ausência que dói devagar. E, no entanto, ao escrever agora, sinto-a a olhar para mim. Um sorriso de Mona Lisa, desses que não se explicam, metade segredo, metade ternura. E o seu olhar — esse olhar que parece atravessar o tempo e o espaço — acompanha-me como uma promessa pequena, mas luminosa.
Termino o dia assim: a pensar nela, preso ao enigma desse sorriso que nunca me deixa indiferente, e a desejar que amanhã o destino me surpreenda com algo tão simples como a sua presença.
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