Espera Suspensa

Domingo, 10 de Agosto de 1975

A manhã abriu-se com o cheiro do incenso e o murmúrio da missa. O Benjamim ao meu lado, silencioso, como se também ele sentisse a respiração contida do mundo, e eu deixava os pensamentos flutuarem, sempre a flutuar de volta para ela, para a Dila. Cada canto da igreja parecia sussurrar o seu nome, cada luz que entrava pelas janelas era como um reflexo de algo que ainda não compreendia, um pressentimento de encontros e desencontros.

À tarde, entre folhas de papel e listas de campismo, tentava organizar-me, dar forma àquilo que sentimos tão imaterialmente: a ansiedade, a expectativa, a esperança de momentos que talvez nunca chegassem. O Benjamim falava, anotava, mas eu ouvia apenas o eco da ausência dela, o espaço que a Dila preenchia mesmo quando não estava.

À noite, o passeio pelas ruas silenciosas tinha a promessa de a encontrar. Olhei cada sombra, cada janela, cada vulto — o coração a bater na garganta, cada passo um pequeno grito de ansiedade contido. Vi apenas a mãe dela, a irmã, e o silêncio pesado daquilo que não aconteceu. Uma ausência que parecia gritar mais alto que qualquer presença.

Desde que lhe entreguei a carta, o tempo tornou-se líquido, lento, impregnado de cada espera que se alonga para o infinito. Cada minuto sem resposta é um fio que me puxa para dentro de mim mesmo, e penso nela com uma mistura de ternura e medo, imaginando se o papel chegou às suas mãos, se o seu pensamento paira sobre mim ou se o silêncio é o seu modo de me dizer algo que ainda não sei decifrar.

Ao fechar o dia, percebo que a espera é um universo em si mesmo, onde a esperança se confunde com o receio, onde o coração se equilibra entre a coragem e a dúvida. E eu continuo aqui, com a certeza de que cada gesto, cada palavra, cada olhar seu vale todos os segundos de ansiedade, e que mesmo no silêncio, algo entre nós permanece, imutável, secreto, precioso.


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